Dois filmes à sombra

No nosso aviltado mercado exibidor, bons filmes brasileiros disputam espaço não só com os blockbusters americanos e nacionais (leia-se globais), mas também com os bons filmes “de autor” vindos dos quatro cantos do mundo.

Nesse contexto, a imprensa cumpre – ou deveria cumprir – um papel importante para não deixar que boas produções sumam ou passem despercebidas. Mas não foi o que aconteceu com dois dos longas mais interessantes lançados no país nos últimos tempos: Transeunte, de Eryk Rocha, e Ex-Isto, de Cao Guimarães. Eclipsados pelo destaque crítico dado a A árvore da vida e Melancolia, os dois virtualmente desapareceram.

Nossos jornais e revistas de grande circulação os trataram quase com desdém, tomando para si os valores e critérios do mercado. Como se pensassem: não são “produtos” para o grande público, então não precisam ser comentados. Uma pena.

Corpo a corpo com a cidade

Curiosamente, trata-se dos primeiros longas de ficção de diretores vindos do documentário. Em Transeunte, o jovem filho de Glauber Rocha parece se afastar do respiro épico dos filmes do pai (marcante em seus primeiros longas) para mergulhar no registro lírico, imergindo de maneira corajosa e comovente na exploração de uma vida singular, a de um homem solitário de meia-idade (Fernando Bezerra) que perambula pelas ruas do Rio de Janeiro. Rodado em preto e branco, com som direto e muita câmera na mão, o filme adere à epiderme do personagem, buscando seu sentido e sua poesia na interação do corpo desse indivíduo comum e ímpar com o corpo múltiplo da cidade. Como o próprio diretor costuma dizer, não é um filme sobre o personagem, mas sim com o personagem.

Um corpo a corpo ainda mais complexo de um homem com seu entorno é encenado por Cao Guimarães em Ex-Isto. O experiente desbravador dos limites do documentário enfrenta aqui o desafio de dialogar cinematograficamente com um livro inclassificável e irredutível, o “romance-ideia” Catatau, de Paulo Leminski. O barroco jorro verbal leminskiano parte de uma hipótese genial: e se René Descartes tivesse vindo ao Brasil na entourage de Mauricio de Nassau, na época da ocupação holandesa de Pernambuco? No filme, o extraordinário João Miguel assume o papel desse Descartes delirante e em crise num país em que tudo é exuberante, desmesurado e absurdo.

Adoecimento da lógica

Ao contrário do crítico literário (por sinal, meu amigo) que resenhou o filme na Folha de S. Paulo, penso que Cao Guimarães foi muito feliz ao encontrar ou suscitar imagens e sons (fala, ruídos, música) que traduzem audiovisualmente esse “adoecimento da lógica cartesiana” em terras tropicais.

São, em suma, dois filmes belíssimos que mereciam um tratamento melhor por parte da nossa imprensa. Eu adoraria saber, por exemplo, o que um Inácio Araujo tem a dizer sobre Transeunte, ou o que um Alcino Leite Neto escreveria sobre Ex-Isto.

Quem ainda tiver oportunidade de ver, não deve perder. Aqui vão, para não me deixar mentir, os trailers dos dois filmes. Divirtam-se.

Anúncios

15 Respostas to “Dois filmes à sombra”

  1. Taís Ferreira Says:

    Muito obrigada pela dica. Gostei muito dos trailers e gostaria de compartilhar em meu blog. Taís Ferreira

  2. maria Says:

    Nem tão à sombra assim. Seu texto os iluminou e deu-lhes um lugar ao sol. E os leitores deste espaço podem fazer o mesmo assistindo-os e comentando com outras pessoas e essas outras com outras e assim por diante, não é?
    E concordo que houve um exagero de propaganda para os dois filmes que você mencionou. Na Folha eles extrapolaram as críticas dedicadas ao cinema e foram parar em outras colunas e cadernos. Muito ruim essa adesão geral e irrestrita, maciça e massificada, mas ainda bem que você existe, Zé. Bj.

  3. bagadefente Says:

    realmente é triste ver obras como essa passarem batido não só pelo público, mas também pela crítica.

    fui assistir Transeunte por mera curiosidade, sem saber ao certo do que se tratava ou mesmo ler qualquer resenha. é um dos melhores filmes nacionais que vi nos últimos tempos.

    além de mim, apenas mais cinco ou seis pessoas ocupavam as cadeiras da sala de exibição. sorte delas.

    • zegeraldocouto Says:

      que bom que você gostou do filme. que pena que tinha pouca gente assistindo. reflexo do que comentei no meu post. no boca a boca a gente tenta reverter esse desdém da imprensa. abração, obrigado pela visita e pelo comentário.

  4. Nirton Venancio Says:

    Sua análise é preciosa, lúcida, caro Zegeraldo. Ainda não vi “Ex-Isto”. Assisti a “Transeunte” no Festival de Brasília ano passado, de longe o melhor concorrente, e injustamente sem o reconhecimento do juri de premiação. Uma pena.

    • zegeraldocouto Says:

      obrigado pelos generosos elogios, nirton. tomara que você veja logo o “ex-isto”. acho que vai gostar também. e o filme do eryk é mesmo uma pequena joia. grande abraço, volte sempre.

  5. Elson Says:

    Mas caro Zé, eu também queria muito saber o que terias a dizer sobre esses 2 muito comentados filmes, que ainda não vi, que são ” A árvore da vida” e “Melancolia”, assisti um ontem que gostei bastante “Super 8″( todo o referencial do cinema do Spilberg das década de 70 e 80 presentes no mesmo filme).
    abs

  6. abel Says:

    zé,acho que o nosso cinema de autor sofre muito em encontrar espaço que naõ seja em festivais de cinema, o filho do Glauber rocha fez um filme que eu achei um pouco arrastado,ainda sim sou a favor do cinema de autor.

  7. Elidio Santos Says:

    Começo a filosofar cá com meus botões e zipper, e se, outors grandes filosofos, que tanto admiro (como é o caso no Mano René, que Descartes em paz) viessem ao Brasil de Hoje? Imagine o Sócrates apontando o dedo na cara da Sarney? Platão flertando com João Gilberto? A lista é Infinita, e bem poderia ser jogada no Face. Abraços e parabens e obrigado pela dica.

  8. Nelson Rodrigues de Souza Says:

    Geraldo,

    Apenas acrescentando que filmes como “A Árvore da Vida” de Terrence Malick e “Melancolia” de Lars Von Trier devem ser mesmo bastante discutidos e analisados, até mesmo extrapolando o espaço dos críticos de cinema habituais e chegando a outros cadernos culturais para ensaios, para o bem e para o mal, pois não se tratam de diretores quaisquer- ambos têm um histórico cinematográfico como poucos no Cinema Contemporâneo,……. concordo que “Transeunte” de Erick Rocha e “Ex-Isto” de Cao Guimarães deveriam ter sido melhor recebidos pelo público e, obviamente, melhor analisados pela crítica, que com exceções, se omitiu. O panorama no circuito está bastante estimulante, havendo ainda o sensacional “A Alegria” de Felipe Bragança e Marina Meliande, o surpreendente filme italiano “Um Sonho de Amor” de Luca Guadagnino, com aspectos viscontianos, mas com luz própria, todo construído em evoluções elípticas, culminando num final comovente, virtuosístico e antológico com Tilda Swinton divina e sua filha lésbica a encarando, num dos closes mais expressivos e significativos do cinema recente, pelos sentimentos ali expressos. É não perder, para ver e crer.

    Temos ainda “Díario de Uma Busca” de Flávia Castro sobre descaminhos e lutas do pai que teve anos de resistência na militância política, com vários exílios, mas a voltar ao Brasil, depois da anistia…bem vejam o filme…comovente e revelador, quase que premonitório do que vivemos hoje no Brasil. “Balada do Amor e do Ódio” de Alex da La Iglesia é uma alucinante, fantástica alegoria da Espanha franquista, que tem ecos até hoje, fundada na disputa de dois palhaços de temperamento diversos, por uma mulher que pode simbolizar a própria Espanha. Não se assustem com os excessos. Tem tudo a ver. O estilo transbordante e rebelde de Alex é algo com causa e fascinante. Não vi ainda “Super-oito” que pode surpreender não só por ser produção de Spieberg (muito interessante em sua capacidade de elaborar biscoitos finos para as massas…) como pela direção de J.J. Abramns da série “Lost” da qual todo mundo que conheço que viu fala maravilhas. Um dia se encontrar tempo, pego as caixas e vejo tudo logo: não tenho paciência nenhuma para ver tudo “esquartejado” em capítulos pela TV.

    O panorama do circuito está tão estimulante (mesmo que não gostemos, os filmes podem despertar ótimas discussões), que até mesmo o hollywodianesco “O Planeta dos Macacos-A Origem” de Ruppert Wyatt, que relevando certos aspectos do cinema-pipoca que ele não abre mão de ser, apresenta fortes elementos de atração: uma visão bem contemporânea de como a Ciência pode trabalhar contra nós e não a nosso favor (algo muito visto em filmes de David Cronenberg, como “Gêmeos-Mórbida Semelhança”, “Scanners”, “Videodrome” etc.), quando a arrogância e o argentarismo a contaminam, dentre outros temas, como a necessidade de utopias que se o Homem a abandonou, os símios liderados por Caesar estão sedentos por ela. De quebra, com a exceção de “A Árvore da Vida”, temos efeitos visuais e especiais dificilmente superáveis este ano, sendo aqui meios, não fins, como ocorre em muitos outros filmes. No Rio de Janeiro tem ainda “Pacific”, doc brasileiro pernambucano bastante original que ainda não consegui assistir. Amanhã sexta estreiam: “Um Conto Chinês”, “Medianeiras” (ambos argentinos, o segundo foi tido como melhor filme latino-americano em Gramado 2011, com exceção dos brasileiros, cuja competição exclusiva foi vencida por “Riscado” de Gustavo Pizzi, a ser lançado logo, que também promete…), “A Fuga da Mulher Gorila”, primeira parte da trilogia “Coração de Fogo” em que “A Alegria” ( este, imperdível, ao meu ver, ainda melhor que “Transeunte” e “Ex-isto”), é o segundo. Também estreia “O Homem do Futuro” de Cláudio “Redentor” Torres com Wagner Moura, uma boa possibilidade de se ter cinema brasileiro popular de qualidade.

    Quem bom saber que você está de volta em Blog, Geraldo. Não sabia que esta boa nova já tinha acontecido depois que você saiu do UOL. Fiquei sabendo através do Blog rastros de carmattos que acompanho desde o início.

    Gostaria de saber sua visão sobre estes filmes todos. E principalmente sobre “A Árvore da Vida”. Este já ganhou o prêmio Fipresci de filme do ano, além da Palma de Ouro de 2010, o que o meu ver é justíssimo, pois é simplesmente translumbrante ( transcendental e deslumbrante, merecendo várias visitas). “Melancolia” não chega a este nível mas é incontornável e merece ser bastante discutido. Pra mim é um retrato 3×4 do mundo em que vivemos e do que pode acontecer com ele, se o Homem não promover desvios de atitudes, condutas e rotas. É uma outra alegoria, mas fortíssima. Assusta mesmo. Mas este mundo não está mesmo assustador???

    Estou desenvolvendo texto para meu Blog http://www.pelaluzdosmeusolhos.blogspot.com/ num primeiro momento mostrando o que estes filmes todos podem ter em comum, de que modo aspectos de um podem se correlacionar/iluminar aspectos de outros. Em outro post desenvolverei mais cada filme um a um. Mas gosto de lidar com spoilers. Assim meus textos são mais interessantes para quem já viu os filmes. E não tenho muita pressa em fazer meus posts, onde me permito também escrever sobre outras artes e coisas, até mesmo sobre política quando se tem de tomar decisões. No ano passado votei no PSOL de cabo a rabo no primeiro turno e no segundo, infelizmente, com muita tristeza, anulei meu voto para presidente. Explico os meus porquês no Blog.
    Assim como a gente tem de prestar bastante atenção ao que não é badalado pela mídia, temos também que não ter preconceitos com o que pode estar sendo badalado por ela, pois há aquele ditado inglês que diz : “Familiaridade causa desprezo” . Podemos cair nesta cilada também. Se o filme de Malick ganhador de Cannes 2011, levasse meses pra estrear no Brasil, como aconteceu com outros (há até um chamado “Crônicas dos Anos de Brasa”, filme africano, se não me engano, que nunca estreou aqui nem foi lançado em DVD), viraria um mito tanto quanto Malick o é. Já ouvi de cinéfilos que ele é muito ambicioso em seu filme. Concordo. Mas ele fez um filme à altura de sua ambição. Um filme que já nasce clássico, de beleza em todos os planos, intransmissível. Tem que ser visto, inapelável e divinamente. Ele incomoda muita gente por nos remeter à divindade sem fazer proselitismo de qualquer religião. Cabala quer dizer “Árvore da Vida”, mas cabala, não é necessariamente algo da cultura judaica. Com ela os judeus adquiriram noções que vão além do Torá. E muito mais pode ser dito e visto. Só acrescento: “Melancolia”, mesmo oposto em muitas coisas é a outra face da moeda; o estado das coisas no filme de Lars, explica porque Malick procura pela Graça em seu filme, mas sem nenhuma carolice ou babaquice.
    Abs,
    Nelson
    Ps Há um filme brasileiro difícil, nada convencional, que está resistindo há um bom tempo em cinemas do Rio de Janeiro, mesmo que exibido em horários alternativos, que é “A Falta Que Nos Move” de Christiane Jatahy, que teve também excelente repercussão por parte da crítica daqui. Não sei bem o que aconteceu com o filme em São Paulo. É obra fundamental do Cinema Brasileiro Contemporâneo. Enquanto “A Alegria” lida com as perplexidades de uma geração bem jovem, “A Falta Que Nos Move” trabalha com outra geração mais velha, também perplexa. O filme me entusiasmou tanto que escrevi alentado texto sobre o filme, mas com spoilers, analisando tudo, até seu desfecho. A diretora gostou tanto que o colocou no site do filme. Em meu Blog está no Post http://pelaluzdosmeusolhos.blogspot.com/2011/07/diversas-faltas-que-movem-seres-humanos.html Enfim…flores em vida..Ufa!…..(rsrsrsrsrsrs)

  9. Célio Says:

    Zé. além do que vc comentou(muito bem , como sempre) ainda perdemos aqui em Sampa o cine Belas Artes , o Gemini , ou seja, menos salas p/ bons filmes, Forte Abraço!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: