O nazismo aqui e agora

Chegou finalmente ao Brasil, em DVD da Videofilmes, um dos documentários mais extraordinários já realizados, o monumental A tristeza e a piedade – Crônica de uma cidade francesa sob a ocupação (1969), de Marcel Ophuls.

O momento não poderia ser mais oportuno, agora que manifestações de fascismo e intolerância afloram em toda parte, de São Paulo à Noruega.

Pois o que o filme de Marcel Ophuls nos mostra – e é isso que o torna mais assustador – é que o nazi-fascismo não é meramente uma questão de poder militar ou de uma liderança política ensandecida, como o cinema hollywoodiano nos descreve há sete décadas, mas um fermento cotidiano, uma brutalidade latente que se alimenta das mais prosaicas vaidades e mesquinharias humanas.

Para construir seu rico painel do período da ocupação da França pelos nazistas, Ophuls concentra seu foco na cidade de Clermont-Ferrand e costura de modo sutil e engenhoso uma infinidade de materiais: cinejornais de época (franceses, alemães, ingleses, americanos), fotos, recortes de jornal. Tudo isso é entremeado por depoimentos dos indivíduos mais diversos que viveram aquele momento, de partisans da Resistência a oficiais nazistas, de espiões ingleses a colaboracionistas, de judeus deportados para campos de concentração a comerciantes que se mantiveram “neutros”.

Antissemitismo e aversão aos ingleses

O resultado é eletrizante, e causou furor na época de lançamento do filme, por contradizer a imagem que se constriu na França do pós-guerra, de um país que resistira em bloco, de maneira ativa ou passiva, à presença alemã. O que Le chagrin et la pitié mostra, ao contrário, é que a ocupação nazista foi facilitada por grande parte (se não a maioria) dos franceses, movidos por sentimentos como o antissemitismo, o medo do comunismo e a aversão aos ingleses, quando não por interesses materiais mais comezinhos, como vender seus produtos aos invasores alemães ou livrar-se de competidores incômodos no mercado comercial ou de trabalho.

Uma das estratégias críticas mais eficazes do documentário é confrontar a imagem que certos personagens constroem de si mesmos, na tentativa apagar ou atenuar sua atitude de colaboração ou conivência, com documentos de época que contradizem essa imagem: por exemplo, um anúncio de jornal em que um comerciante declarava não ser judeu. Ou então são os próprios depoimentos dos personagens que se contradizem uns aos outros. Em certo momento, o genro do primeiro-ministro fantoche francês Pierre Laval diz que este era um homem cordato e não-repressivo, logo depois que um oficial do exército informa que Laval mandou crianças francesas para campos de concentração alemães.

Nem monstros nem santos

A ironia, por ser sutil, tem sua contundência potencializada. (Michael Moore devia ver esse filme o quanto antes.) Os depoimentos falam por si. Entre os mais iluminadores estão os de dois aristocratas franceses, um que aderiu ao nazismo, chegando a lutar na Waffen SS no front oriental, e o outro que se engajou na Resistência. Ophuls deixa-os à vontade para contarem sua história e explanarem suas ideias e sentimentos. Sentimo-nos próximos dos dois. O colaboracionista não é um monstro, o resistente não é um santo. São humanos, como nós, e é isso que inquieta e incomoda. Estamos longe, aqui, da fantasia maniqueísta e apaziguadora de Hollywood.

A dolorosa sinfonia de Max Ophuls termina de modo pungente: logo depois da guerra, num inglês carregado de sotaque, Maurice Chevalier fala ao público norte-americano para explicar sua dúbia atitude durante a ocupação nazista da França. É quase um pedido de desculpas e de emprego. Seria cômico se não fosse trágico.

Aqui vai o trailer americano (um tanto bombástico e enganoso) dessa obra-prima.

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20 Respostas to “O nazismo aqui e agora”

  1. noemi Says:

    muito bom, zé!

  2. Marcos Alexandre Says:

    Excelente artigo/crítica do Zé Geraldo Couto, que mostra como a arte do cinema, quando bem feita, não se perde com o tempo e se revela atual.

    Não nos cansamos de ver filmes clássicos exatamente porque eles não envelhecem e permitem sempre novos olhares, novos significados e novas emoções.

    Embora não se possa sequer compará-lo à “A tristeza e a piedade – Crônica de uma cidade francesa sob a ocupação”, eu recomendaria também o interessante filme “A Onda”, do jovem diretor Dennis Gansel.

    Trata-se de uma leitura pertinente (e muito necessária) de nossos tempos de intolerância e multiculturalismo.

    Um abraço, Zé!

    • zegeraldocouto Says:

      obrigado pelo generoso comentário, marcos. também gosto bastante de “a onda”, que aliás foi inspirado num fato ocorrido numa universidade norte-americana, com final quase tão trágico quanto o do filme. abração, volte sempre.

  3. CK Says:

    Esse trailer é quase uma deformação do filme. Relembro ter visto o filme há muuuitos anos e me impressionou pela excelente montagem que vai mostrando como muitos na França colaboraram com os nazistas durante a ocupação alemã. Um documentário maravilhoso.

  4. Jeferson Araújo Pereira Says:

    Não vi esse doc., mas pelo seu artigo eu lembrei de um dos melhores filmes do Costa-Gavras, de 1975, que tem tudo a ver com o tema: Seção Especial de Justiça.Filmaço!

  5. Avital Gad Says:

    Excelente análise, Zé. Lembro desse filme, e gostaria de assisti-lo de novo. Realmente, a historia é cheia de historias individuais, e introdução dela depende de quanto peso o pesquisador da para aspectos diferentes.
    Bjs,
    Avital

  6. maria Says:

    Oi Zé, também não vi, mas o farei com certeza. Gostei muito do que você escreveu sobre o “fermento cotidiano”. E ao seu “nem monstro nem santo” eu acrescentaria “também monstro e santo” pois para mim, apesar de aparentemente opostas, a junção de ambas revela a própria contradição humana. E sobre a neutralidade pensei numa frase que ouvi ontem: “ao não fazer o mal faço o bem”. Será?
    E você leu a crítica do Inácio sobre “Melancolia”? No final ele escreveu:”claro que Von Trier não é nazista”. Concordo com ele, pelas matérias que li na época, e com você sobre o tal “fermento cotidiano”. Na minha opinião, atitudes revelam mais sobre quem somos do que as palavras proferidas, o discurso. Apesar de ainda não ter assistido ao filme, seu texto proporcionou-me todos esses questionamentos. Muito obrigada e um beijo. Ótimo fim de semana.

    • zegeraldocouto Says:

      sim, maria: “monstro e santo” é uma fórmula tão válida quanto “nem monstro nem santo”. você, como sempre, entendeu muito bem o espírito da coisa. quanto ao von trier, ele foi duplamente infeliz: primeiro, pelas declarações em si (com essas coisas não se brinca), segundo porque desviou o foco do filme para essa falsa polêmica. beijo, obrigado pela contribuição sempre enriquecedora.

  7. Emerson Says:

    Zé,

    Extremamente pertinente e esclarecedor o seu texto, sobretudo, nesses momentos de profunda intolerância, embora eu acredite que já tenha sido muito pior. Acho que houve avanços, sinceramente. Pela sua dica, esse filme já foi para lista, pois eu me vejo mais humano quando percebo que bem e mal andam, no mais das vezes, de mãos dadas. Lembro de uma cena, vagamente, daquele filme Noite e Neblina, do Alain Resnais, no qual ele mostra um campo de concentração com uma pilha gigantesca de mortos. Vem um trator e pega aqueles corpos e joga na vala. Porém, uma voz em off destaca o orgulho nazista de ter preservado uma árvore de mais de 200 anos, que teria sido contemporânea de Goethe. O problema é quando a contradição do espírito humano serve de desculpa para qualquer monstruosidade.

    um forte abraço,
    Emerson

    • zegeraldocouto Says:

      caro emerson: muito bem lembrado. “noite e neblina” é um filme crucial para essa discussão do papel e dos limites do cinema para documentar o horror absoluto. grande abraço, obrigado pela visita e pelo comentário.

  8. Adao Rodrigues Says:

    Bom Dia ! Por Favor, alguem, informa onde é possivel encontrar as legendas deste Documentario ? Obrigado. Adao

    • zegeraldocouto Says:

      oi adão. não sei onde encontrar as legendas, mas o doc já está disponível em dvd da videofilmes, com legendas, extras e tudo mais. recomendo a locação ou a compra. abração, volte sempre.

  9. Keila Says:

    Olá, Zé, te acompanho por meio do site: outraspalavras.
    Quanto a esse artigo, não conheço o documentário, mas a discussão é muito válida, tanto para o contexto do momento em que nos situamos quanto para toda uma análise da construção história da sociedade. Inclusive, na data de ontem, estava a comentar com uma amiga acerca da xenofobia e como ela é reproduzida por quase toda a sociedade de forma involuntário – ou não tão involuntário-, e acabei utilizando seu artigo como exemplo para ilustrar a ideia geral, pois exemplifica claramente a maneira que isso ocorre em nosso cotidiano.
    A partir de agora estarei por aqui.
    Abraços,
    Keila

    • zegeraldocouto Says:

      legal, keila. recomendo vivamente o documentário, até porque você já está bem envolvida com o assunto. fico contente em saber que você usou meu artigo numa discussão. e mais contente ainda em saber que você vai frequentar o blog. abraço, seja bem-vinda.

  10. Nelson Rodrigues de Souza Says:

    Geraldo,

    Excelente o seu texto. Cristalino e profundo como sempre. Se durante anos acalentei a vontade de ver este filme (do filho, grande documentarista, do grande cineasta Max Ophüls de “Lola Montès”, um dos belíssimos e melhores filmes da História do Cinema), agora fico com mais vontade de assisti-lo, motivado pelas suas pensatas. Lamento, entretanto, que este filme tão fundamental, comentado e elogiado, que nunca consegui assistir, nunca tenha sido lançado no circuito exibidor brasileiro. E Max também tem outros aqui inéditos. Cadê os curadores que não organizam uma Mostra dele?

    Se não me engano, este é o filme que Woody Allen não se cansa de ir assistir em “Annie Hall”.

    Dentro do tema colaboracionismo na França, não esqueço jamais uma das obras-primas de Louis Malle, que é “Lacombe, Lucien”, onde um jovem que teve o impulso de entrar para a resistência é reprimido neste sentido e passa a ser colaboracionista. Desconcertante, belíssimo e elucidativo.

    Com relação ao seu texto só discordo num ponto. A sutileza em documentários é sempre muito bem vinda. Mas o humor cortante de Michael Moore, a meu ver, também é bem vindo. Assim como Sergio Bianchi, diante da condição indigente a que submeteram índios de forma quase que irreversível, pergunta: “Mato Eles?”. Os docs e seus caminhos são infinitos. Morgan Spurlock de “Super Size Me- A Dieta do Palhaço” também é muito interessante, mesmo não atingindo a grandeza de Max. Um doc como “Sicko” de Moore, um filme urgentíssimo sobre a questão da saúde nos EUA, modelo copiado, de certa forma no Brasil, seria insuportável sem o bom humor do cineasta. O mesmo poderia dizer de “Tiros em Columbine” e “Fahrenheit 11 de Setembro” (este foi pioneiríssimo na crítica feroz à era Bush e o que dela adviria; filmes melhores vieram depois sobre o tema, mas relativamente, parecem obras de profetas de fatos consumados…). Numa noite do Oscar, artistas chegaram a vaiar Moore que queria falar mais ao ganhar seu prêmio por “Tiros em Columbine”. Tempos depois muitos embarcaram em visões críticas do que estava acontecendo nos EUA. Quanta hipocrisia, conforme comentou Arnaldo Block em crônica de O Globo !

    Como homossexual, gostaria de assistir também documentários que mostrassem mais e melhor o que aconteceu com o pessoal GLBT durante o nazismo. Conforme nos mostra a obra-prima da dramaturgia “Bent” de Martin Sherman, atualmente em cartaz no Rio de Janeiro em horário bem alternativo (claro que tinha de ser em horário maldito..), em excelente montagem, com sucesso de público e de crítica, homossexuais em campos de concentração eram considerados uma “classe” ainda mais “baixa” que os judeus. Tanto era assim que um dos protagonistas que é homossexual, apela a álibis falsos para ser tido como judeu e não usar um triangulo rosa na roupa. Imperdível. Tem uma das cenas de sexo mais fortes e belas da História da Dramaturgia. Há um filme adaptado, com Clive Owen, mas há perda de substância dramática considerável nesta transposição. Esta cena homoerótica, bem como o impacto das pedras carregadas de um lado para o outro por dois homossexuais apaixonados que não podem se tocar, vigiados constantemente, como Sísifos redivivos, tem muitíssimo mais impacto no Teatro do que no Cinema. Conferi depois ao fim do espetáculo: os atores carregam mesmo pedras verdadeiras e não simuladas, para sentirem mais os personagens que interpretam.

    Gostaria de assistir ótimos docs sobre o tema. Bem como sobre ciganos. Esta hegemonia de holocausto de judeus no Cinema me cansa um pouco, confesso. Mas um filme como este de Ophuls ou “O Pianista” de Roman Polanski, “A Lista de Shindler” de Spielberg, bem como “Neblinas e Sombras” de Alain Resnais, dentro outros, são imprescindíveis e merecem ser sempre vistos em todas as gerações. Mas outros passos têm de ser dados em outras direções de horrores catalogáveis que também devem ser bem mostrados para não serem repetidos, como agora está acontecendo de forma ainda mais assustadora, como os crimes bárbaros contra o pessoal GLBT. Até um pai e um filho heterossexuais, confundidos como gays, foram atacados por criminosos e enquanto o filho ficou ferido, o pai teve uma orelha quase que decepada. Não me perguntem o que aconteceu com os facínoras neonazistas…Adivinhem….Numa país em que não se aprova de jeito nenhum, leis anti-homofobia, assim como existem leis contra o racismo, o que se pode esperar?
    Acredito que a overdose sucessiva e ininterrupta de imagens sobre judeus massacrados, pode anestesiar as pessoas para os horrores que estão sendo perpetrados pelo Estado de Israel contra os palestinos há décadas, pois estes foram feitos bodes expiatórios de todo sofrimento insuportável e inadmissível infligido aos judeus, mas não só a estes. Que levantem mais o véu que cobre tantos sofrimentos e outras vítimas também ganhem bastante visibilidade, seja durante os horrores do nazismo, como na contemporaneidade. Neste sentido um filme como “Paradise Now” de Hany Abu-Assad é fundamental, essencial. Um filme que começa aonde o Cinema de um Amos Gitai acaba, por mais talentoso, humanista e não maniqueísta que este seja.

    “Paradise Now” ganhou o Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro. Concorreu ao Oscar nesta categoria, mas não ganhou, ao contrário de uma quantidade de filmes de que já perdi a conta, que direta ou indiretamente tratam da questão judaica no nazismo. Por que será?

    Não sou daqueles que execram “A Vida é Bela” de Roberto Benigni, muito pelo contrário. Mas “Central do Brasil” de Walter Salles, enquanto Cinema , é muitíssimo mais bem resolvido em todos os planos. No entanto perdeu o Oscar para “A Vida é Bela” que ainda deu o Oscar de melhor ator para Benigni que está excelente, mas que não se pode comparar ao que faz Ian McKellen em “Deuses e Monstros” de Bill Condom, que também concorria a melhor ator. Bem, preciso explicar porque estas coisas acontecem e pelo jeito ainda acontecerão?

    E por favor não me entendam mal: nada contra judeus, mas tudo contra o Estado de Israel na forma em que está sendo conduzido, infelizmente com o voto de muitos judeus, tão cúmplices e colaboracionistas como franceses durante a ocupação. Alternativas políticas com candidatos que querem outro destino para Israel existem, mas são ignorados por uma maioria de eleitores.

    O Hamas e os homens bombas representam horrores? Claro, sem dúvida. Mas me recuso a ficar em cima do muro. Estes horrores são monstros produzidos pelas políticas do Estado de Israel até então. O Hamas é um horror tão grande que explora até os palestinos desfavorecidos na Faixa de Gaza, grande maioria, com túneis abertos para burlar o cerco, bem vigiados. E o que é a Faixa de Gaza, senão um enorme campo de concentração que o Estado de Israel criou para palestinos????

    Um crítico de cinema aqui do Rio de Janeiro que conheço, que como muitos não vive mesmo desta atividade, teve suas economias todas evaporadas por um destas crises das bolsas de valores nos últimos anos.Na última vez em que nos vimos por acaso na Praia de Botafogo, ele estava de malas prontas para emigrar para Israel, se valendo de suas origens, para recuperar condições de sobrevivência que aqui não tinha mais. Nada contra. É o que se lhe apresenta e é justíssimo. Mas numa conversa que tivemos sobre o conflito Israel/ palestinos, ele me disse algo arrepiante, mas falacioso e muito perigoso: o Estado Palestino não pode nunca existir, porque se isto acontecer ele terá forças armadas e a primeira coisa que fará será destruir Israel… Temo que isto que ele explicitou em desvairadas e enlouquecidas palavras, expresse o que pensam muitos que apoiam este Estado de Israel, fora ou dentro, como está constituído e conduzido..

    Por mais que haja as loucuras do Hamas e dos homens bombas, o que enxergo é uma luta de David contra Golias. E David não é Israel. Golias tem de realmente ceder. Ceder não. Entregar muitas terras de que palestinos precisam para viver e que lhe foram tomadas. Esta história de Terra Prometida tem de ser bastante relativizada e melhor pensada. Eu poderia invadir e tomar terras por aí alegando que antepassados meus longínquos eram donos dela e foram expulsos? Claro que Israel tem de ter seu espaço na região. Não dá mais para voltar atrás. Mas os palestinos também tem de ter suas terras, bem delimitadas e favoráveis para crescer, plantar, morar, viver enfim e não sobreviver apenas ou então morrer… Não estão querendo nada demais. Simplesmente o justo. E parem com essa coisa de pesarem um lado ou outro e dizer que são/estão iguais. Não são/estão! E ainda há os EUA por trás, protegendo, ajudando Israel a se defender de infâmias criminosas perpetradas com ONU acuada e conivente, dando ao país até condições de ter bomba atômica. Já no Irã nem pensar….

    É por estas e outras que há pessoas ( como parece pensar Emir Sader por colações suas, ou pensa mesmo) que Gadaff é um injustiçado pela OTAN, mesmo querendo exterminar todos os rebeldes….Algo com o qual não concordo de forma alguma. É como querer que todos, sem exceção, criminosos e ladrões graúdos presos sejam soltos para as ruas, porque há (e como!) criminosos e corruptos/ ladrões soltos com a cumplicidade de políticos dos mais variados matizes e cargos. O máximo que acontece com alguns, quando “pegos”, é perderem o cargo elevado que ocupavam, como aconteceu com ….vocês sabem…a lista é enorme… E não adianta tentar discutir isso com um Emir Sader da vida, pois é como malhar em ferro frio.

    Mas depois de exposto isto tudo, o horror mesmo seria dois homens darem um belo beijo numa novela da Globo ou nas ruas, sem ser molestado….Que mundo é este! Se viesse uma nave como a de “Contatos Imediatos de Primeiro Grau” de Spielberg, acho que eu embarcaria na nave, como faz o personagem de Richard Dreifuss ao final, pois pelo andar da carruagem no Brasil e no mundo, o Planeta Melancolia vai se chocar mesmo com a Terra e eu não tenho vocação nem para ser Justine nem Claire ( muito menos o marido desta), personagens emblemáticos de atitudes diante deste mundo do jeito em que está, geniais criações do genial Lars Von Trier. Encontrar a Graça como Malick nos mostra em seu filme extraordinário, tem de ser algo bem trabalhado. Atualmente estou muito mais interessado em vida antes da morte, do que em vida depois da morte. Esta última preocupação, como Scarlett O’Hara, eu deixo para pensar depois….
    Espero que meu texto seja aprovado na íntegra no trabalho de moderação. Expressei tudo que penso, sinceramente. É este tom bem sincero que tem conquistado leitores para meu Blog. Claro que outros se afastam por causa disso. Mas hoje nem Chico Buarque é unanimidade. Já cheguei a ler na Folha de São Paulo, que “o tempo passou na janela e só Chico Buarque não viu…” E isto quando ele e Edu tinham há não muito tempo lançado “O Grande Circo Místico”, um dos maiores clássicos da MPB, em todos os aspectos.

    Abraços,
    Nelson

  11. Nelson Rodrigues de Souza Says:

    Zé Geraldo,

    Complementando aspectos do que escrevi antes aqui, tem-se logo adiante um eloquente exemplo da famigerada vida real, que nos assusta mais (pelo menos a mim) do que a ficção/alegoria de Lars Von Trier de “Melancolia”. Tem muita gente que em vez de procurar pela Graça como Malick, procura mesmo a desgraça, sua e a de outros.

    http://noticias.uol.com.br/ultnot/multi/?hashId=suspeito-de-homicidio-de-modelo-tem-tatuagem-comprometedora-04024E193860CC812326&mediaId=12030829

    E tem um cara no Twitter, que se diz escritor, que quer porque quer me convencer, que este não é um crime por homofobia, mesmo tendo sido assassinados dois gays na Oscar Freire em São Paulo, com grande requintes de violência, crueldade e de forma compulsiva, depois de um “Boa Noite Cinderela” dado aos dois. Meu “oponente” afirma que o assassino por já conhecer as vítimas antes e frequentar boates gays, não seria de forma alguma homofóbico (sic). Isto me faria rir, se não fosse tão sórdido! Existe também a homofobia internalizada que faz com que até mesmo gays odeiem gays, tanto quanto a si mesmos. Quem quiser entender melhor esta questão, leia o fundamental: “Seis Balas Num Buraco Só” do grande escritor João Silvério Trevisan. João tem uma fala também essencial e inesquecível: “Das pessoas mais perigosas que conheci na vida, estão os homossexuais bem mal resolvidos. Uma pessoa que mata seu próprio desejo é capaz de tudo em relação ao desejo do outro”. Isto bateu forte com o fato narrado? Ou não?

    Leitores de você, Geraldo, querem eu explique ou desenhe?

    No Brasil de hoje o pessoal GLBT corre muitíssimos mais riscos de vida do que os judeus. Estes para os problemas que tiverem contam não só com mobilização da comunidade judáica, como com outros setores da sociedade. Já o pessoal GLBT só tem os grupos associados a esta questão e alguns poucos simpatizantes que realmente contam, na ausência de leis anti-homofobia, que pelo andar da carruagem não saem tão cedo, com um Congresso dominado por evangélicos, católicos, “gente da família” (sic) ,fanáticos, dentre outros, que espero não representem a maioria de pessoas ligadas por certas convicções a eles e somente aos que os elegeram/elegem/ alguns há anos ( se bem que eles fazem cabeças ingênuas/ou nem tanto…). Representantes destes pressionaram a presidenta Dilma, com ameaças de chamar Palocci para depor no Congresso no auge deste escândalo, ela cedeu e acabou proibindo a distribuição do Kit anti-homofobia, já bastante estudado e elaborado, até aprovado pelo Ministério da Educação, que seria distribuído nas escolas para serem discutidos entre professores e alunos mais maduros e não com crianças ainda em desenvolvimento ( como quiseram por calúnia alardear). E assim o bullying e os crimes homofóbicos crescem cada vez mais e não há horizonte para que questões mais complexas como leis anti- anti-homofobia e o casamento gay mesmo ( e não simplesmente união civil) sejam aprovados. Em tempo: este último não tem nada a ver com religião. É uma questão de juízes/ cartórios para que o pessoal GLBT tenha realmente garantido o que a Constituição Brasileira insinua, mas na prática não é cumprido. Todos seriam iguais perante a lei….Heteros ou homos…Mas o que vemos/temos é que alguns, “orwellianamente” são mais iguais que os outros…Até quando esta infâmia? Se dependermos, pelo jeito, de força da presidenta, como ocorreu na Argentina e no Chile, estamos fritos!

    Aos que acharem que estou extrapolando e fugindo da questão Cinema, lembro simplesmente que o grande Cinema não é apenas experimentação de linguagens, mas também reflexo do mundo, da vida, que nos conclama a refletir sobre a vida e estas reflexões podem até mesmo motivar à realização de outros filmes. Filmes apenas voltados para o próprio umbigo, ou do diretor, ou ainda de corriolas de amigos&conhecidos&críticos, não me interessam. Isto pra mim é que faz toda diferença e me conduz a gostar imensamente de Ingmar Bergman, dentre tantos outros cineastas com as mesmas atitudes. Por mais cuidado que ele tenha com “experimentações de linguagens”, como, por exemplo, no essencial e espantoso “Persona” que já vi algumas vezes, com renovado encanto e mistérios ainda por serem apreendidos, dentre outros, o que pulsa mais que tudo é a vida e seus impasses! Bergman mesmo já declarou que a grande matéria prima de seus filmes é sua própria vida e o que observa em relação à de outros. Claro que ele não é o único. Mas é o que mais me mobiliza e atrai. E quem assistir com atenção “Da Vida das Marionetes” perceberá um caso típico de homofobia internalizada, que do desejo de matar a própria mulher que surge insistentemente em sonhos, acaba numa falta de coragem de levar este desejo até o fim e desesperada sublimação, por fazer o protagonista matar um prostituta.Um dos mais árduos filmes de Bergman, mas ao mesmo tempo bastante recompensador para quem quiser entender os labirintos mais encalacrados em que a alma humana pode se envolver.

    Abs,
    Nelson

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