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Dois filmes à sombra

agosto 21, 2011

No nosso aviltado mercado exibidor, bons filmes brasileiros disputam espaço não só com os blockbusters americanos e nacionais (leia-se globais), mas também com os bons filmes “de autor” vindos dos quatro cantos do mundo.

Nesse contexto, a imprensa cumpre – ou deveria cumprir – um papel importante para não deixar que boas produções sumam ou passem despercebidas. Mas não foi o que aconteceu com dois dos longas mais interessantes lançados no país nos últimos tempos: Transeunte, de Eryk Rocha, e Ex-Isto, de Cao Guimarães. Eclipsados pelo destaque crítico dado a A árvore da vida e Melancolia, os dois virtualmente desapareceram.

Nossos jornais e revistas de grande circulação os trataram quase com desdém, tomando para si os valores e critérios do mercado. Como se pensassem: não são “produtos” para o grande público, então não precisam ser comentados. Uma pena.

Corpo a corpo com a cidade

Curiosamente, trata-se dos primeiros longas de ficção de diretores vindos do documentário. Em Transeunte, o jovem filho de Glauber Rocha parece se afastar do respiro épico dos filmes do pai (marcante em seus primeiros longas) para mergulhar no registro lírico, imergindo de maneira corajosa e comovente na exploração de uma vida singular, a de um homem solitário de meia-idade (Fernando Bezerra) que perambula pelas ruas do Rio de Janeiro. Rodado em preto e branco, com som direto e muita câmera na mão, o filme adere à epiderme do personagem, buscando seu sentido e sua poesia na interação do corpo desse indivíduo comum e ímpar com o corpo múltiplo da cidade. Como o próprio diretor costuma dizer, não é um filme sobre o personagem, mas sim com o personagem.

Um corpo a corpo ainda mais complexo de um homem com seu entorno é encenado por Cao Guimarães em Ex-Isto. O experiente desbravador dos limites do documentário enfrenta aqui o desafio de dialogar cinematograficamente com um livro inclassificável e irredutível, o “romance-ideia” Catatau, de Paulo Leminski. O barroco jorro verbal leminskiano parte de uma hipótese genial: e se René Descartes tivesse vindo ao Brasil na entourage de Mauricio de Nassau, na época da ocupação holandesa de Pernambuco? No filme, o extraordinário João Miguel assume o papel desse Descartes delirante e em crise num país em que tudo é exuberante, desmesurado e absurdo.

Adoecimento da lógica

Ao contrário do crítico literário (por sinal, meu amigo) que resenhou o filme na Folha de S. Paulo, penso que Cao Guimarães foi muito feliz ao encontrar ou suscitar imagens e sons (fala, ruídos, música) que traduzem audiovisualmente esse “adoecimento da lógica cartesiana” em terras tropicais.

São, em suma, dois filmes belíssimos que mereciam um tratamento melhor por parte da nossa imprensa. Eu adoraria saber, por exemplo, o que um Inácio Araujo tem a dizer sobre Transeunte, ou o que um Alcino Leite Neto escreveria sobre Ex-Isto.

Quem ainda tiver oportunidade de ver, não deve perder. Aqui vão, para não me deixar mentir, os trailers dos dois filmes. Divirtam-se.

O nazismo aqui e agora

agosto 5, 2011

Chegou finalmente ao Brasil, em DVD da Videofilmes, um dos documentários mais extraordinários já realizados, o monumental A tristeza e a piedade – Crônica de uma cidade francesa sob a ocupação (1969), de Marcel Ophuls.

O momento não poderia ser mais oportuno, agora que manifestações de fascismo e intolerância afloram em toda parte, de São Paulo à Noruega.

Pois o que o filme de Marcel Ophuls nos mostra – e é isso que o torna mais assustador – é que o nazi-fascismo não é meramente uma questão de poder militar ou de uma liderança política ensandecida, como o cinema hollywoodiano nos descreve há sete décadas, mas um fermento cotidiano, uma brutalidade latente que se alimenta das mais prosaicas vaidades e mesquinharias humanas.

Para construir seu rico painel do período da ocupação da França pelos nazistas, Ophuls concentra seu foco na cidade de Clermont-Ferrand e costura de modo sutil e engenhoso uma infinidade de materiais: cinejornais de época (franceses, alemães, ingleses, americanos), fotos, recortes de jornal. Tudo isso é entremeado por depoimentos dos indivíduos mais diversos que viveram aquele momento, de partisans da Resistência a oficiais nazistas, de espiões ingleses a colaboracionistas, de judeus deportados para campos de concentração a comerciantes que se mantiveram “neutros”.

Antissemitismo e aversão aos ingleses

O resultado é eletrizante, e causou furor na época de lançamento do filme, por contradizer a imagem que se constriu na França do pós-guerra, de um país que resistira em bloco, de maneira ativa ou passiva, à presença alemã. O que Le chagrin et la pitié mostra, ao contrário, é que a ocupação nazista foi facilitada por grande parte (se não a maioria) dos franceses, movidos por sentimentos como o antissemitismo, o medo do comunismo e a aversão aos ingleses, quando não por interesses materiais mais comezinhos, como vender seus produtos aos invasores alemães ou livrar-se de competidores incômodos no mercado comercial ou de trabalho.

Uma das estratégias críticas mais eficazes do documentário é confrontar a imagem que certos personagens constroem de si mesmos, na tentativa apagar ou atenuar sua atitude de colaboração ou conivência, com documentos de época que contradizem essa imagem: por exemplo, um anúncio de jornal em que um comerciante declarava não ser judeu. Ou então são os próprios depoimentos dos personagens que se contradizem uns aos outros. Em certo momento, o genro do primeiro-ministro fantoche francês Pierre Laval diz que este era um homem cordato e não-repressivo, logo depois que um oficial do exército informa que Laval mandou crianças francesas para campos de concentração alemães.

Nem monstros nem santos

A ironia, por ser sutil, tem sua contundência potencializada. (Michael Moore devia ver esse filme o quanto antes.) Os depoimentos falam por si. Entre os mais iluminadores estão os de dois aristocratas franceses, um que aderiu ao nazismo, chegando a lutar na Waffen SS no front oriental, e o outro que se engajou na Resistência. Ophuls deixa-os à vontade para contarem sua história e explanarem suas ideias e sentimentos. Sentimo-nos próximos dos dois. O colaboracionista não é um monstro, o resistente não é um santo. São humanos, como nós, e é isso que inquieta e incomoda. Estamos longe, aqui, da fantasia maniqueísta e apaziguadora de Hollywood.

A dolorosa sinfonia de Max Ophuls termina de modo pungente: logo depois da guerra, num inglês carregado de sotaque, Maurice Chevalier fala ao público norte-americano para explicar sua dúbia atitude durante a ocupação nazista da França. É quase um pedido de desculpas e de emprego. Seria cômico se não fosse trágico.

Aqui vai o trailer americano (um tanto bombástico e enganoso) dessa obra-prima.