A economia e o excesso – dois filmes brasileiros

Voltei ontem de Paulínia, antes da premiação do festival.

Vejo que Claudio Assis ganhou quase tudo com o seu Febre do rato, inclusive o prêmio da crítica.

Correndo o risco de trafegar na contramão dos meus colegas, confesso que o resultado me desagradou e vou explicar por quê.

Começo esclarecendo que cheguei tarde a Paulínia e não vi um dos fortes competidores do festival, O Palhaço, do Selton Mello, do qual ouvi só boas referências.

Mas o filme que mais me encantou, disparado, foi Trabalhar cansa, dos estreantes em longa Marco Dutra e Juliana Rojas.

Drama social, cinema fantástico

É uma mistura improvável e desconcertante de drama social com cinema fantástico. A situação de partida é das mais banais: um executivo, Otávio (Marat Descartes, de Os inquilinos), perde o emprego; sua mulher, Helena (Helena Albergaria), tenta montar um minimercado. Há uma inversão de rumos, portanto: a mulher vai para a rua, para o mundo do trabalho, ao mesmo tempo em que o homem é expelido dele e fica em casa se deprimindo.

O homem fica sem lugar, a mulher tenta construir o seu. As relações de trabalho permeiam tudo, seja na conflituosa interação de Helena com os empregados do minimercado e com a doméstica que é obrigada a contaratar para cuidar da casa e da filha, seja na saga inglória de Otávio pelas entrevistas de emprego e agências de colocação profissional.

Mas há outro eixo que organiza e anima o filme, que é o da construção e ocupação do espaço: a doméstica que “invade” o apartamento, as reformas no prédio do minimercado – este último funcionando quase como um personagem vivo e autônomo.

É em torno desses dois vetores, o trabalho e o espaço (dito de outra maneira: as relações dos indivíduos entre si e com o ambiente), que o filme se desenvolve, com uma economia narrativa admirável.

Brecht e Polanski

Poucos filmes brasileiros até hoje trabalharam com tanta segurança e eficácia as elipses, os silêncios, o “fora do quadro”. Mais raros ainda são os que conseguem trafegar pelos vários gêneros sem se prender a suas regras e sem perder seu foco e sua pegada.

O que incomodou uma parte da crítica (mais do que o público, cuja acolhida foi calorosa) foi justamente o que o filme tem de melhor, que é o seu caráter inclassificável. É drama social, mas é também suspense, terror, alegoria política. Tudo ao mesmo tempo.

No debate do filme em Paulínia, os jovens diretores falaram de sua dívida com o cinema clássico (de Ford e Hitchcock a Walter Hugo Khoury) e com Brecht, em especial com a leitura de Brecht pela companhia do Latão, grupo teatral paulista que forneceu atores e ideias para o filme. Mas é evidente também o diálogo com o cinema de atmosfera de um David Lynch, de um Kubrick e mesmo do Polanski de O inquilino.

Mas o fato é que todas essas referências, toda essa bagagem literária e audiovisual, não pesa, não grita, não prejudica a originalidade sem ostentação da dupla de cineastas.

É, sem exagero, um filme para ficar na história do nosso cinema.

Cláudio Assis na encruzilhada

Bem, e o Cláudio Assis?

Que me perdoem os fãs incondicionais do diretor – que nos deu os admiráveis Amarelo manga e Baixio das bestas – mas eu tenho a impressão de que ele esgotou (espero que temporariamente) o que tinha a dizer e agora caiu na redundância, no maneirismo, virou grife.

Há no filme – rodado num mangífico preto e branco por Walter Carvalho – uma estilização extrema do universo que interessa ao diretor, o de uma espécie de jovem lumpesinato recifense, com seus pequenos traficantes, seus subempregados, seus bêbados, putas e travestis. Há um poeta marginal (o excelente Irandhyr Santos), que faz um jornalzinho artesanal chamado Febre do rato e funciona como um alter-ego do diretor, vociferando poemas verborrágicos e discursos obscenos contra as elites e os poderes estabelecidos.

Trepa-se, bebe-se cachaça e fuma-se maconha o tempo inteiro nessa espécie de comunidade alternativa.

Uma rebeldia ao mesmo tempo adolescente e envelhecida, ecoando na tela o discurso recorrente do cineasta, um discurso que se quer revolucionário, mas em geral não passa de malcriado.

O sórdido e o sublime

Que não me entendam mal. Cláudio Assis tem enorme talento e vigor, seu cinema encontra no sórdido momentos de sublime poesia. Mesmo em Febre do rato há passagens belíssimas e antológicas, como aquela em que, a pedido do poeta, sua amada levanta a saia e mija no rio, agachada na beirada de um bote ou jangada. Um momento digno de Bataille, de Henry Miller, de Pasolini. Mas essas epifanias se perdem no mais das vezes no fluxo de imagens e falas que parecem não ter outro sentido senão o de desejar épater.

Talvez eu esteja enganado, mas foi assim que vi Febre do rato. Ensurdecido pelos aplausos, aturdido pela badalação, dificilmente Claudio Assis vai parar para refletir sobre o seu trabalho. É uma pena.

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12 Respostas to “A economia e o excesso – dois filmes brasileiros”

  1. Rogerio Moraes Says:

    Muito bom o seu texto, Zé. Gosto muito quando você decodifica um filme que assistiu. É quando aprendo mais com você. Até hoje penso na bela leitura que fez do Ilha do Medo, quando a maior parte da crítica não passou da análise superficial da trama. Agora você me deixou louco para ver esse Trabalhar Cansa. O último filme nacional que assisti foi o Cabeça a Prêmio, uma decepção total, principalmente por ter adorado a novela do Marçal Aquino. Não sei se você concorda, mas o cinema brasileiro tem uma grande dificuldade na hora de adaptar textos literários com grande influência cinematográfica. Penso principalmente no Rubem Fonseca. Preciso ver o Febre do Rato, mas creio que concordarei com você. O talentoso Claudio Assis tem que parar com esse mais do mesmo. Gostei muito do Amarelo Manga, mas o Baixio das Bestas já tinha disparado o alerta. Agora é torcer para os filmes aparecerem logo nos cinemas rio-pretenses. Abração.

    • zegeraldocouto Says:

      caro rogerio: que bom que você compartilha comigo a mesma preocupação com o cinema do claudio assis. espero que os filmes cheguem logo a rio preto. quero saber sua opinião sobre eles. abração, obrigado pela visita e pelo comentário.

  2. Luiz Augusto dos Reis Says:

    eh zé, excelente texto o teu; vale dizer q vi sim febre do rato, e o achei quase o mais bem comportado, por assim dizer, dos filmes de Claudio de Assis- será que estaria neste filme o índice de que ele já reflete seu trabalho, como muito bem você disse?
    palhaço e trabalhar cansa infelizmente ainda não vi…

  3. Lucas Bender Says:

    Muito bem colocado. Pois eu até hoje não entendi (mentira, eu entendo, mas não concordo) os elogios a Amarelo Manga. Tudo bem, tem lá sua força expressiva, mas é puro épater, pura doença, puro equívoco – é puro, ok, isso é um mérito, mas essa pureza às avessas não é necessariamente cinema. É fetiche dos cansados.
    Parabéns pelo blog.

    • zegeraldocouto Says:

      caro lucas, embora não concorde muito com o julgamento implacável sobre “amarelo manga”, gostei da formulação: fetiche dos cansados. foi o que me pareceu o “febre do rato”. abração, obrigado pela visita e pelo comentário. volte sempre.

  4. Avital GC Says:

    Oi Ze, È muito bom voltar a ler os seus textos. A sua analize de Trabalhar Cansa despertou o meu interesse no filme. Espero que ele chegue á Floripa.
    Abraços,
    Avital

  5. ceuvagem Says:

    Salve Zé, sempre é saudável ouvir/ler opiniões que nos faz pensar sobre a outra maergem do rio, e quem sabe na terceira.

    • zegeraldocouto Says:

      grande aurelio, é sempre bom receber sua força e sua generosidade. grande abraço. (p.s.: você viu que o emiliano ribieiro, nosso companheiro de comissão, partiu? que ele descanse em paz.)

  6. Marcelo Lyra Says:

    Zé, será que vc não está exigindo que o Assis reivente a roda a cada filme? Me parece interessante ver o que mais ele tem a dizer sobre o universo dele, como sempre me interessa ver como Hitchcock sempre retrabalha as mesmas questões. Longe de mim comparar os dois, mas autores tem disso. Abração.

    • zegeraldocouto Says:

      caro marcelo, não, não quero que ninguém reinvente a roda. só gostaria que os cineastas talentosos, como o claudio assis, não deitassem na cama que já fizeram, não se tornassem uma caricatura de si mesmos. a comparação com hitchcock não procede, porque, além de seu objetivo ser essencialmente de entretenimento (nunca ficou fazendo discursos libertários e/ou visionários), ele se renovava a cada filme. obrigado pela visita e pelo comentário. abração.

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