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A economia e o excesso – dois filmes brasileiros

julho 15, 2011

Voltei ontem de Paulínia, antes da premiação do festival.

Vejo que Claudio Assis ganhou quase tudo com o seu Febre do rato, inclusive o prêmio da crítica.

Correndo o risco de trafegar na contramão dos meus colegas, confesso que o resultado me desagradou e vou explicar por quê.

Começo esclarecendo que cheguei tarde a Paulínia e não vi um dos fortes competidores do festival, O Palhaço, do Selton Mello, do qual ouvi só boas referências.

Mas o filme que mais me encantou, disparado, foi Trabalhar cansa, dos estreantes em longa Marco Dutra e Juliana Rojas.

Drama social, cinema fantástico

É uma mistura improvável e desconcertante de drama social com cinema fantástico. A situação de partida é das mais banais: um executivo, Otávio (Marat Descartes, de Os inquilinos), perde o emprego; sua mulher, Helena (Helena Albergaria), tenta montar um minimercado. Há uma inversão de rumos, portanto: a mulher vai para a rua, para o mundo do trabalho, ao mesmo tempo em que o homem é expelido dele e fica em casa se deprimindo.

O homem fica sem lugar, a mulher tenta construir o seu. As relações de trabalho permeiam tudo, seja na conflituosa interação de Helena com os empregados do minimercado e com a doméstica que é obrigada a contaratar para cuidar da casa e da filha, seja na saga inglória de Otávio pelas entrevistas de emprego e agências de colocação profissional.

Mas há outro eixo que organiza e anima o filme, que é o da construção e ocupação do espaço: a doméstica que “invade” o apartamento, as reformas no prédio do minimercado – este último funcionando quase como um personagem vivo e autônomo.

É em torno desses dois vetores, o trabalho e o espaço (dito de outra maneira: as relações dos indivíduos entre si e com o ambiente), que o filme se desenvolve, com uma economia narrativa admirável.

Brecht e Polanski

Poucos filmes brasileiros até hoje trabalharam com tanta segurança e eficácia as elipses, os silêncios, o “fora do quadro”. Mais raros ainda são os que conseguem trafegar pelos vários gêneros sem se prender a suas regras e sem perder seu foco e sua pegada.

O que incomodou uma parte da crítica (mais do que o público, cuja acolhida foi calorosa) foi justamente o que o filme tem de melhor, que é o seu caráter inclassificável. É drama social, mas é também suspense, terror, alegoria política. Tudo ao mesmo tempo.

No debate do filme em Paulínia, os jovens diretores falaram de sua dívida com o cinema clássico (de Ford e Hitchcock a Walter Hugo Khoury) e com Brecht, em especial com a leitura de Brecht pela companhia do Latão, grupo teatral paulista que forneceu atores e ideias para o filme. Mas é evidente também o diálogo com o cinema de atmosfera de um David Lynch, de um Kubrick e mesmo do Polanski de O inquilino.

Mas o fato é que todas essas referências, toda essa bagagem literária e audiovisual, não pesa, não grita, não prejudica a originalidade sem ostentação da dupla de cineastas.

É, sem exagero, um filme para ficar na história do nosso cinema.

Cláudio Assis na encruzilhada

Bem, e o Cláudio Assis?

Que me perdoem os fãs incondicionais do diretor – que nos deu os admiráveis Amarelo manga e Baixio das bestas – mas eu tenho a impressão de que ele esgotou (espero que temporariamente) o que tinha a dizer e agora caiu na redundância, no maneirismo, virou grife.

Há no filme – rodado num mangífico preto e branco por Walter Carvalho – uma estilização extrema do universo que interessa ao diretor, o de uma espécie de jovem lumpesinato recifense, com seus pequenos traficantes, seus subempregados, seus bêbados, putas e travestis. Há um poeta marginal (o excelente Irandhyr Santos), que faz um jornalzinho artesanal chamado Febre do rato e funciona como um alter-ego do diretor, vociferando poemas verborrágicos e discursos obscenos contra as elites e os poderes estabelecidos.

Trepa-se, bebe-se cachaça e fuma-se maconha o tempo inteiro nessa espécie de comunidade alternativa.

Uma rebeldia ao mesmo tempo adolescente e envelhecida, ecoando na tela o discurso recorrente do cineasta, um discurso que se quer revolucionário, mas em geral não passa de malcriado.

O sórdido e o sublime

Que não me entendam mal. Cláudio Assis tem enorme talento e vigor, seu cinema encontra no sórdido momentos de sublime poesia. Mesmo em Febre do rato há passagens belíssimas e antológicas, como aquela em que, a pedido do poeta, sua amada levanta a saia e mija no rio, agachada na beirada de um bote ou jangada. Um momento digno de Bataille, de Henry Miller, de Pasolini. Mas essas epifanias se perdem no mais das vezes no fluxo de imagens e falas que parecem não ter outro sentido senão o de desejar épater.

Talvez eu esteja enganado, mas foi assim que vi Febre do rato. Ensurdecido pelos aplausos, aturdido pela badalação, dificilmente Claudio Assis vai parar para refletir sobre o seu trabalho. É uma pena.

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