A graça de Woody Allen

A melhor definição de Woody Allen que eu li nos últimos tempos foi dada pelo amigo jornalista Márvio dos Anjos no Facebook: “Na categoria meio-médio-ligeiro, ele é campeão do mundo”.

Meia-noite em Paris é a comprovação disso. Resumindo drasticamente as coisas, no filme há um jovem casal americano em Paris; ele é escritor e tem uma visão romântica da criação artística; ela é patricinha e pragmática como o pai capitalista e só vê a arte como um verniz que não difere muito das roupas e jóias que consome.

Lá pelas tantas (meia-noite em Paris), o rapaz viaja fantasticamente aos anos 20, encontrando figuras carimbadas da vida parisiense da época: Hemingway, Fitzgerald, Picasso, Gertrud Stein…

Pílulas de conhecimento

Essa mudança de dimensão (temporal, no caso) não deixa de lembrar a passagem da tela de cinema para a “realidade” – e vice-versa – de A rosa púrpura do Cairo, outro sucesso de público do cineasta. Fechemos o parêntese.

O fato é que, para tornar o protagonista mais simpático aos olhos da plateia, Allen o contrapõe a um intelectual pedante (personagem recorrente em seus filmes), que lança mão de pílulas de conhecimento para se passar por culto.

Só que, reparando bem, isso não é muito diferente do que o próprio cineasta faz em seu filme. As noitadas secretas do protagonista no passado são pouco mais do que um encadeamento de clichês sobre os personagens históricos em questão: Zelda Fitzgerald sempre bêbada, Hemingway falando de boxe e coragem e indo caçar antílopes na África, Dali às voltas com imagens de rinocerontes etc.

A diferença é que, ao contrário do chato de galochas que fascina a noiva do protagonista com seu falatório pseudoculto, Woody Allen faz o seu número com graça e leveza. E insere entre os clichês algumas variações e piadas muito boas, como a do escritor do nosso tempo  sugerindo ao jovem Buñuel que faça um filme sobre um grupo de pessoas que não consegue sair de uma casa (o tema de Anjo Exterminador). O engraçado da história é a reação de Buñuel, que não entende o sentido daquilo e faz uma objeção que só os críticos mais obtusos fariam, décadas depois, a sua obra-prima: “Mas por que eles não saem simplesmente pela porta aberta?”

A cena me lembrou uma passagem análoga de Peggy Sue (o De volta para o futuro de Francis Coppola) em que Peggy (Katlhleen Turner), retornada à juventude, “sopra” a seu namorado roqueiro (Nicholas Cage) a letra e a música de She loves you, dos Beatles, como receita para o sucesso. Só que ele é um palerma tão completo que muda o refrão, de She loves you, yeah, yeah, yeah para um insosso She loves you, you, you. No cinema americano, mesmo no cinema “de autor”, nada se cria, tudo se recicla.

Velho encanto hollywoodiano

O que torna irresistível o encanto desses filmes agridoces do diretor, com seu mood “allegro non troppo”, não é a exibição superficial de cultura, nem a filosofia meio de auto-ajuda que se depreende deles (no caso deste: “o passado sempre nos parece dourado porque não somos capazes de ver a poesia que nos cerca no presente”, ou algo do tipo). O que torna Woody Allen campeão do mundo é a leveza, a elegância e a sem-cerimônia com que nos leva pela mão a um mundo de fantasia, de cores esmaecidas e aconchegantes, em que o cinza cede lugar ao sépia, ao som de Cole Porter e banjos de bandas dixieland. Assim qualquer época da história fica dourada.

Falta amadurecer esta ideia, mas desconfio que, ao fim de tantos desvios aparentes, Woody Allen retorna sempre ao seio materno de Hollywood e das fábulas contadas desde que o mundo é mundo, ao persistente mecanismo de identificação e projeção que nos lança por um par de horas no interior da tela, ligeiramente estupefatos, mas crédulos. É, em suma, um entertainer, um contador de histórias e um ilusionista.

Que esta sua arte superficial e ligeira – e até fajuta, se queiserem – siga nos embalando por muito tempo ainda.

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30 Respostas to “A graça de Woody Allen”

  1. Ewerton Says:

    POis é, Zé. O Woody Allen consegue reunir opiniões de diferentes esferas de cinéfilos, tanto daquele que só vê filmes hollywoodianos àqueles que só vêm filmes cults de arte. E essa capacidade se dá porque eu acho que ele é um cineasta, um operário do cinema(acho que ele já deve ter falado isso). É tão notável o fato dele trabalhar tanto, produzir tanto e com tanta qualidade (minha opinião, pelo menos) que o único desejo incontestável é mesmo este que você disse: “que sua arte siga nos embalando por muito tempo ainda.”

    em tempo: “No cinema americano, mesmo no cinema “de autor”, nada se cria, tudo se recicla.” >>>> http://www.nytimes.com/2011/06/26/movies/super-8-x-men-first-class-midnight-in-paris.html?_r=1&ref=movies

    sempre bom passar por aqui. abraço.

  2. Bruno Mello Castanho Says:

    Parabéns pelo texto Zé.

    Realmente, com Allen, nós sabemos exatamente por onde estamos indo, mas não conseguimos mudar de caminho. “Meia Noite em Paris” consegue nos encantar porque queremos aceitar o jogo proposto.

    um abraço

  3. Marcos Alexandre Says:

    Vi os principais filmes de Woody Allen, para não dizer todos, já que não são tantos assim. Parecidos, seus filmes são feitos para o mesmo público, que já o acompanha há tempos e, portanto, é capaz de comprender sua mensagem e a relação que possuem entre si.

    No caso de “Meia-Noite em Paris”, os espectadores que não forem cultos ou bem informados, terão dificuldade de compreender o roteiro, as aparições de personagens históricos e lendários, da literatura, do cinema e até da filosofia.

    Ouso dizer que há muito tempo Woody Allen não fazia um trabalho tão interessante, agradável e profundo, embora o seu melhor ainda seja, a meu ver, “Desconstruindo Harry”.

    • zegeraldocouto Says:

      bem colocado, marcos. também gosto muito de “desconstruindo harry”, embora não esteja entre os meus três ou quatro favoritos dele. só discordo de você quando diz que os filmes de woody allen não são tantos assim. ora, são mais de 40 longas-metragens, e o sujeito continua filmando um por ano. é filme que não acaba mais. abração, obrigado pela visita e pelo comentário.

  4. maria Says:

    Da trilogia Barcelona/Londres/Paris considero-o campeão por pontos nos dois primeiros e por nocaute técnico no último. Bem legal as associações com “A Rosa …” e “Peggy Sue”. A lembrança que tenho, principalmente de “A Rosa …”, é da fantasia associada à melancolia. Em “A Meia-noite …”, no entanto, essa é basicamente alegre e esperançosa. O filme realmente possui a leveza e o encanto que você mencionou e esses são simplesmente adoráveis. Porém, em virtude do exagero nos clichês, creio que ele acerta mais no roteiro em “Você vai conhecer …”. Em tempo: não gosto do boxe por causa da violência, mas já que estamos na esfera do fa-de-conta, espero que ele acerte um cruzado de esquerda e nos brinde com o seu melhor (roteiro/imagens) no próximo a ser rodado na Itália. Bj.

    • zegeraldocouto Says:

      maria querida, muito boa sua analogia com o boxe. lembrei do cortázar dizendo que o romance pode vencer o leitor por pontos, mas o conto tem que vencer por nocaute. estou curioso também pelo filme rodado na itália. vamos esperar. obrigado pela visita, sempre enriquecedora. beijão.

  5. Jeferson Araújo Pereira Says:

    Ainda não assisti, mas devo ver em breve.O fato de “lembrar” A Rosa Púrpura do Cairo já me deixa feliz, pois é o meu Allen preferido.Ano passado eu li – e recomendo – o livro que a Cosac-Naify publicou: Conversas Com Woody Allen.

    • zegeraldocouto Says:

      caro jeferson: de fato, o livro é muito bom, talvez o melhor já publicado sobre woody allen. no youtube é possível encontrar o vídeo de uma entrevista feita pelo godard com o woody allen, que vale no mínimo pelo insólito do encontro entre criadores tão diferentes. abraço, volte sempre.

  6. James Cesar M A Souto Says:

    Sempre tive a impressão de que os melhores filmes de Woody Allen são aqueles em que ele não se leva tão a sério, bem como não desperta na plateia o desejo de ser mais pedante por adorá-lo.

  7. N. Konthyegki Says:

    Bela observação final. Seríamos nós tão pedantes quanto o personagem mais caricato desse diretor auto-irônico, sempre penso nessas coisas quando vou assistir a um filme dele e fico a observar as pessoas na fila do cinema a conversar sobre o cinema… No entanto, a “servidão voluntária” que você citou é muito patente. Qual seria a nossa diferença então para os que veem os blockbusters? (silêncio).
    Você, Zé Geraldo, sempre uma crítica sensata!

    Abraços.

    Minhas impressões sobre o filme:
    http://ficcaoenaoficcao.wordpress.com/2011/06/21/critica-e-cronica-meia-noite-em-paris-no-cinesabesp/

  8. maria Says:

    gostei da dica e fui conferir o Godard.Muito bom. E pensei num encontro entre Woody e Clint Eastwood.Não sei se é insólito, mas seria interessante. Americanos,com praticamente um filme por ano,ambos dirigem, atuam e são músicos (Clint até faz trilhas sonoras). Ah, e se fosse ele a filmar na Itália teria a vantagem de saber a língua. Serviu de tradutor para Ennio Morricone qdo este recebeu um Oscar honorário (YouTube). Tb no YT: France 24 the interview: Full interview with Woody Allen. Interessante entrevista concedida em Cannes. Em inglês.Após 25 anos, desde o encontro com Godard, acho que ele não aprendeu francês ou não quis arriscar. Mas, no filme, há uma auto-ironia sobre isso. Lembra qdo tentam pronunciar Sorbonne? Ainda sobre os aspectos otimistas do filme: um toque meio Cinderella (o carro/carruagem que o transporta para o mundo que ele sempre sonhou/almejou). A morte, um tema caro ao diretor, nos é apresentada através dos artistas que parecem mais vivos do que nunca (bebendo, dançando, produzindo). bj.

    • zegeraldocouto Says:

      puxa, maria, um encontro entre woody allen e clint eastwood seria o máximo. até nos contrastes entre um e outro eles teriam muito o que conversar. e suas observações sobre o filme do woody allen são pertinentes, para não dizer brilhantes. beijo grande, volte sempre.

  9. sandra camurça Says:

    Zé Geraldo não sou crítica de cinema, precisaria conhecer os clássicos pra ter cultura cinematográfica para tal, mas bem que me arrisco de vez em quando,rs…

    Gostei da sua crítica e também me lembrei de A Rosa Púrpura do Cairo.

    Sim, a arte de Allen é superficial e ligeira mas não chamaria de fajuta não. Adoro Woody Allen! Será que sou uma expectadora fajuta? 😦

    • zegeraldocouto Says:

      cara sandra, me deixe esclarecer. eu quis dizer que o cinema narrativo, de grande público, tem um lado de arte fajuta, de prestidigitação de feira. o cinema nasceu no circo, nas feiras de curiosidades, é sempre bom lembrar. nisso não vai nenhuma crítica. acho legal lembrar sempre essa origem plebeia do cinema. abraço, obrigado pela visita e pelo comentário.

  10. sandra camurça Says:

    putz,,agora que percebi: “espectadora” (escrevi “expectadora”..)

  11. jose Says:

    Dá gosto de viver quando vejo filmes como Alem da Vida do Clint e esse novo Woody Allen.O “Durão” e o “Cínico” conseguem me fazer crer que a felicidade é possível.É a graça da Vida como diria você,Mestre Zé.

  12. captadiscipuli Says:

    Zé, saudade de um texto!

  13. Rodrigo Turrer Says:

    Caro José Geraldo Couto,
    Meu nome é Rodrigo Turrer, sou repórter da Revista Época.
    Estou escrevendo uma reportagem sobre filmes de ação brasileiros. um genêro em que nunca fomos muito bons, mas depois de Cidade de Deus e Tropa de Elite tivemos algumas tentativas – poucos acertos e muitos fiascos. Quando falo em “filme de ação” não estou me referindo a Transformers ou Duro de Matar, tá? Estou falando de filmes com uma trama envolvente, um enredo perspicaz, mas que tenham cenas de ação.
    Certa vez o senhor escreveu um artigo em seu blog na Folha comentando a diferença entre o cinema argentino e o brasileiro. Essa diferença, em sua opinião, residia basicamente no roteiro, na forma de contar a história. Eles não mastigam nada, nós mastigamos e regurgitamos tudo para o espectador. Acho que esse é um dos principais problemas desses filmes nacionais. Além de questões técnicas como edição e pós-produção. Será que poderíamos conversar um pouco sobre isso?
    Sua opinião na reportagem seria de grande valia para nós.
    Se pudermos conversar:
    Meu único problema é que essa reportagem fecha hoje, então precisaria falar com alguém da Zazen, por telefone memso, coisa rápida, de 15 minutos. Será que você poderia me ajudar?
    Desde já, agradeço a atenção,

    Rodrigo Turrer

    (11) 3767-7336 / (11) 7474-1303

    • zegeraldocouto Says:

      caro rodrigo: desculpe, mas eu estava viajando, desconectado, e só agora li sua mensagem. tarde demais para a matéria, suponho. mas espero que você se torne leitor e participante do blog. só uma coisa: somos colegas, por favor não me chame de senhor. obrigado. abraços.

  14. Marcelo Lyra Says:

    Zé, o encontro Allen x Eastwood seria covardia. Clint é um peso pesado com vários nocautes no cartel, acostumado a disputar títulos com Coppola, Scorsese etc.

    • jose Says:

      Eu,zé discipulo do Zé,só posso dizer discretamente que Allen toca mais a minha simples e tola realidade do que Clint.

      • zegeraldocouto Says:

        caros marcelo e zé: penso que são autores de cinemas tão distintos que não há duelo ou comparação possível. há espaço para os dois, que realizaram, cada um a sua maneira, filmes maravilhosos. não é preciso optar. quando muito, posso dizer que há dias em que clint eastwood atinge mais minha sensibilidade, e há dias em que é woody allen quem me toca mais. abraços, obrigado pela conversa.

  15. maria Says:

    rapazes, estou gostando da conversa então peço licença para entrar na roda enquanto seu lobo (o Zé) não vem.
    Vi mais o Woody Allen por isso me arrisco a dizer que prefiro seus filmes. Mas como há vários do Clint que não assisti, então não garanto se essa é uma resposta definitiva. Bom, eles são muito diferentes e talvez em comum tenham somente o fato de serem músicos frustrados. Brincadeira, é uma suposição minha. abs.

    • zegeraldocouto Says:

      bom, maria, chegou o lobo. penso que são dois grandes cineastas, com obras muito pessoais e fortes. clint eastwood mais clássico, woody allen mais errático e inquieto na forma de narrar (quando não se acomoda em sua fórmula pronta). e você lembrou bem: ambos amam e valorizam a melhor música americana. beijo, volte sempre.

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