Recife frio

Um dos melhores filmes brasileiros dos últimos tempos é um curta-metragem: Recife frio, de Kleber Mendonça Filho, que ganhou recentemente o Grande Prêmio do Cinema Brasileiro em sua categoria.

Recife frio é a prova cabal de que engenho e arte são o principal “valor de produção” de um filme. Com baixo orçamento e alta imaginação, Kleber Mendonça parte de uma ideia engenhosa – a mudança radical do clima do Recife, possivelmente motivada pela queda de um meteorito – para construir uma obra de contundente crítica social e cultural e, ao mesmo tempo, de reflexão sobre a imagem e suas manipulações.

Sob a forma de uma falsa reportagem especial da televisão argentina, o filme dá rédea solta à especulação, virando do avesso a capital pernambucana e sua inserção no imaginário mundial. No processo, revela de um ângulo inusitado as fraturas sociais e arestas culturais, retirando-as do lugar de “paisagem natural” (e, no limite, invisível) em que se encontram. Kleber Mendonça distorce a cidade para mostrá-la melhor.

Tudo isso com um uso sagaz dos poucos recursos à disposição, com uma confiança profunda nas potencialidades da linguagem cinematográfica e na capacidade imaginativa do espectador. O melhor efeito especial, o filme nos mostra, ainda é a capacidade humana de fantasiar, fabular, inventar.

Faltou dizer que o curta é divertidíssimo, cheio de sacadas brilhantes, como a da transmutação do quarto da empregada (esse hediondo avatar da velha senzala) no cômodo mais disputado do apartamento à beira-mar.  Ou a do artesão ceramista que passa a moldar figurinhas agasalhadas diante da lareira, em vez dos tradicionais cangaceiros ou sertanejos montados em jegues.

Talvez não seja exagero dizer que Recife frio está para o cinema brasileiro atual como Ilha das Flores (1989), de Jorge Furtado, está para o cinema brasileiro do final do século passado. Ambos são falsos documentários que transcendem os limites do curta, abrem caminhos, iluminam toda uma cinematografia.

O filme está no youtube, dividido em duas partes. Aqui vão elas:

 

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10 Respostas to “Recife frio”

  1. Bruno Mello Castanho Says:

    Realmente Zé!

    Vi “Recife Frio” no Festival de Brasília de 2009 e fiquei encantado e emocionado. Depois de conhecer mais o trabalho do Kleber Mendonça, que está finalizando o seu primeiro longa de ficção – “O Som ao Redor” – ouso dizer que estamos diante de um dos mais inventivos e corajosos realizadores brasileiros.

    parabéns pelo texto!

    abraços

  2. zegeraldocouto Says:

    sim, bruno. a julgar pelos curtas, e pelo amadurecimento do kleber entre um e outro, o longa deve ser no mínimo muito interessante. vamos esperar. abração, volte sempre.

  3. milu Says:

    puxa, zé. fiquei super curiosa pra ver! valeu a dica. bjo

  4. zegeraldocouto Says:

    oi milu. vê aí no youtube, nos links que botei no blog. dá pouco mais de 20 minutos ao todo. garanto que você vai gostar. beijo.

  5. Bruno Mello Castanho Says:

    Esqueci de dizer que fica a dica de que o filme está à venda em DVD, na livraria cultura, com extras e tudo, por 20 reais. Para os que puderem, a experiência será melhor que a do youtube, que também é válida e necessária para ampliar a exibição. abraços

  6. jose Says:

    Zé,voçe já escreveu alguma crítica sobre Crítico do Kleber?Adoraria ler.Ah!Uma dica:X- men Primeira classe.Uma surpresa até para mim que sou fanático.

    • zegeraldocouto Says:

      caro xará: infelizmente ainda não vi o “crítico”, do kleber. tampouco vi o “x-men”, mas ainda pretendo vê-lo nos próximos dias. obrigado pela dica. abração, volte sempre

  7. maria Says:

    Muito bom mesmo, porque não repete fórmulas e formas, como Hitchcock, não é? E ótima sacada sobre “o melhor efeito especial” do ser humano. Gostei. Nada a acrescentar, você disse tudo. Pena que haja pouca divulgação/distribuição. E onde está o erro, de acordo com o que Hitch julgava ser fracasso? bj

  8. sandra camurça Says:

    perdi várias oportunidades de assistir a esse curta, era doida pra ver! maravilhoso! e muito bom seu texto!

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