Música para ver, cinema para ouvir

Um dos mais influentes músicos do século 20, Miles Davis, que estaria completando hoje 85 anos, tem mais a ver com o cinema do que geralmente se imagina.

O timbre inconfundível de seu trompete aparece em 48 longas-metragens, fora aqueles em que não foi creditado. Mas ele compôs relativamente pouco para cinema: levam a sua assinatura um punhado de documentários e apenas três longas de ficção: Ascensor para o cadafalso (1957), de Louis Malle, Siesta – Marcas de uma paixão (1987), de Mary Lambert, e Dingo (1991), de Rolf de Heer.

Desses, o mais importante, de longe, é o primeiro. O thriller de Louis Malle deve muito de sua elegância e densidade emocional ao cool jazz de Miles Davis. A trilha, repleta de improvisos do próprio trompetista, marcou época e influenciou boa parte da música dos policiais psicológicos/existenciais europeus e americanos feitos desde então.

Segue aqui um registro precioso: Miles Davis improvisando para a gravação da trilha sonora diante das imagens projetadas do filme. Poucas vezes houve uma comunhão tão perfeita entre música e cinema. O próprio Malle fala sobre isso ao final do vídeo.

Como curiosidade, vai também um trecho de Dingo em que Miles aparece como ator, no papel do trompetista Billy Cross, ídolo do jovem branquelo John “Dingo” Anderson (Colin Friels), que sai do interior da Austrália para tentar a sorte como músico nos clubes de jazz de Paris. Até onde eu sei, o filme não foi exibido comercialmente no Brasil (só em festivais) e ainda não está disponível em DVD.

O filme pode não ser grande coisa, mas a música… Ouça só:

E, só para completar a fatura, um trecho de Siesta, com Ellen Barkin, Isabella Rosselini e a música do homem:

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24 Respostas to “Música para ver, cinema para ouvir”

  1. Ewerton Paulino Says:

    faço das suas as minhas palavras: “Poucas vezes houve uma comunhão tão perfeita entre música e cinema.”
    essa música do Ascensor é muito linda.

  2. zegeraldocouto Says:

    é linda mesmo, ewerton. obrigado pela visita e pelo comentário. abração, volte sempre.

  3. Dora Says:

    Que MARAVILHA, Zé!!!!! Vou ficar por aqui um bocado!!! Tks!

  4. Adriana Cardoso Says:

    Sempre preciso e marcante. Texto lindo e hoje com música, sobre ela então… Nos faz ir lá onde está o filme, a cena determinada, parece que entramos e fazemos parte dele. Obrigada pela partilha. E por mais uma explicação valiosa. Músicas lindas que deixaram marcas na história da vida da gente. Beijos gratos Zé.

  5. Alexandre M. D'Elia Says:

    Excelente texto. Só que, se não me engano, eu me lembro de ter assistido Dingo no Estação Botafogo na década de 1990.

    • zegeraldocouto Says:

      obrigado, alexandre. o estação botafogo exibiu sim o “dingo”. só não sei se foi comercialmente ou dentro do festival do rio (então “mostra rio”). grande abraço, volte sempre.

  6. Fernando Dias Says:

    Zé,

    Você mencionado Siesta, me fez lembrar do magnífico álbum Sketches of Spain, que o Miles fez inspirando no Concierto de Aranjuez, de Rodrigo. Ouvinte de pop/rock que sou, jamais havia imaginado até então que jazz pudesse me causar tal encantamento. Faixas como The Pan Piper e Saeta, são de arrepiar!

    E quanto a Louis Malle, ainda não vi Ascensor para o Cadafalso mas recentemente assisti O Sopro do Coração e fiquei maravilhado com a cena de abertura, que se bem me lembro, tem muito jazz (Charlie Parker, Gillespie e outros).

    Grande abraço,

    Fernando

    • zegeraldocouto Says:

      sim, fernando. “sketches of spain” é demais. se não me engano, foi feito em parceria com o gil evans. e “o sopro no coração” tem mesmo uma trilha linda de jazz, com charlie parker e outros. louis malle era um aficionado e conhecedor. abração, volte sempre.

  7. Rogerio Moraes Says:

    Nossa, Zé! Não sabia que você havia criado outro blog. Que saudade dos seus textos sobre cinema. Sou louco por Miles Davis. Há inúmeros gênios do jazz, mas nenhum tão completo e abrangente quanto ele. O cidadão participou de quase todas as vertentes do jazz. Gosto muito de uma trilha que ele fez em parceria com o John Lee Hooker para o Hot Spot, um noir moderno dirigido pelo Dennis Hopper. O filme não é lá essas coisas, mas a trilha, uma jóia. Uma das minhas fases favoritas do Miles é a fusion, quando ele trouxe o rock para o jazz. O Michael Mann utiliziu Spanish Key, do disco Bitches Brew, no Colateral. Admiro muito o cinema do Mann e o Colateral, na minha opinião, é um grande filme, injustamente ignorado pela crítica. Na cena do clube de jazz há uma montagem com Spanish Key e depois o dono do clube fala sobre quando tocou com o Miles, na juventude. O link da montagem é http://www.youtube.com/watch?v=fi-Fv735CLk No mais, fiquei muito feliz ao descobrir o seu novo blog. Abração.

    • zegeraldocouto Says:

      salve, rogerio. pois é, este novo blog já tem uns três meses. muito boas as suas lembranças, tanto a da trilha do “hot spot” como a do “colateral”. obrigado também pela cena. enriqueceu o blog. grande abraço, a casa é sempre sua.

  8. Bruno Mello Castanho Says:

    Caro Zé,

    Que imagem linda o Miles Davis em frente da projeção, criando e sendo absorvido pela imagem criada na tela. Belo!

    Pena que eu não entendo francês, fiquei muito curioso para saber o que eles conversam!

    Parabéns pelo post!

    um abraço

  9. vera nilce Says:

    obrigada Zé … um abraço!

  10. Anderson Says:

    Engraçado como apenas um texto pode te remeter a uma série de coisas. Lendo teu post me veio uma questão que volta e meia surge em alguma discussão, mas que na sua maioria é levada em tom da brincadeira, de que o cinema está mais para a música do que para a literatura, como estamos habituados a pensar. E isso devido ao modo de composição, exposição, entre outros fatores de ambos: Cinema e Música. Infelizmente, ao longo dos anos, nossa formação tende ao oposto, de que precisamos de amarras e trunfos de uma narrativa literaria, por assim dizer. Com isso não quero dizer um modo seria melhor que outro, há meritos em ambos. Enfim, a discussão poderia se extender e extender . . .

    Outro ponto de que lembrei com seu texto, é que o uso de jazz no cinema não é tarefa das mais simples. É facil jogar um sax ali, ou um piano acolá no “melhor” estilo easy listening, mas obras como as de Miles, Monk ou mesmo do Zorn são para poucos que possuem a ousadia e dom. De cara penso em Cassavetes e Spike Lee, que conseguiram usa o jazz sem soar pretensiosos ou maniqueistas.

    De resto, fico a pensar em um cinema mais livre, não como sinônimo de uma falta de habilidade, pelo contrário. Mas como o Jazz..

    • zegeraldocouto Says:

      caro anderson: muito boa a sua reflexão/instigação. às vezes penso também que o cinema, ao menos no mainstream, ainda está muito preso a paradigmas literários e teatrais e que vale a pena desenvolver a sua vocação musical. e também concordo com a dificuldade de usar o jazz nas trilhas sem ser como “música de fundo”, mas como parte integrante da expressão audiovisual. obrigado pela visita e pelo comentário. grande abraço.

  11. maria Says:

    Zé, também fiquei curiosa, então solicitei a um amigo que transcrevesse o diálogo. Tomo a liberdade de invadir o seu espaço (pra variar) e reproduzir, aqui, o trecho no qual o músico é citado:
    J: Que se passe t´il exactement?
    LM: Et bien c´est le musicien américain Miles Davis qui est en train d´improviser sur les images de mon film, Ascenseur pur l´Echafaud
    J: Vous voulez dire qu´il regarde les images et il joue de la trompette en fonction de cette image?
    LM: Oui, c´est à dire que ce sont des images qu´il connait bien puisqu´il a vu le film et nous avons discuté de ce qu´on pourrait faire et ensuite actuellement avec sa formation, on lui projette les images et il enregistre
    J: Il n´a pas écrit de partitions avant?
    LM: Absolument pas
    J: Comme ça lui vient?
    LM: Comme ça lui vient.
    J: Il serait venu le lendemain ça aurait été une autre musique?
    LM: Oui, et même d´une prise a l´autre c´est différente.
    J: C´est une très jolie perfomance, mais je crois Louis Malle, auparavant, il faudrait que je vous présente, vous êtes … vous vous appelez donc Louis Malle, vous avez 25 ans, c´est ça?
    LM: Oui
    Como você pode notar minha transcrição é totalmente dispensável diante da perfomance do Miles Davis, do thriller do Louis Malle e de seu belo texto. Posso afirmar que houve, aqui, uma “comunhão perfeita” entre som, imagem e palavras.
    E por falar em jazz, você já escreveu sobre Bird, do Clint Eastwood? Não sei se estou louca, mas estou procurando o seu texto (que talvez nem exista), mas não encontro.
    Ah, não coloquei a tradução porque acho que é possível compreender o diálogo e também, quem sabe, atiçar a curiosidade (do Bruno, talvez) para aprender o francês.
    Bj e uma ótima semana.

    • zegeraldocouto Says:

      maria, você, como sempre, enriquecendo o blog. preciosa essa transcrição da entrevista do louis malle. eu mesmo tinha perdido algumas passagens. quanto ao “bird”, não me lembro de ter escrito sobre ele, embora goste muito do filme. me deu até vontade de revê-lo. beijão, volte sempre, a casa é sua.

  12. Mirian Says:

    Meu caro, simplesmente lindo. Mas o melhor de tudo foi ter te reencontrado! Abraços, pelo visto seu blog já é um grande sucesso, e que seja cada vez mais. Você merece.
    PS. Estou lendo uma biografia da Clarice Lispector, traduzida por você.
    Nossa, quanta emoção né…

    • zegeraldocouto Says:

      obrigado, mirian. você é muito generosa. que legal que está lendo a biografia da clarice. acho muito bom o trabalho de pesquisa do benjamin moser e também o seu texto. foi uma delícia traduzir. beijo, volte sempre.

  13. maria Says:

    Fui procurar um “Bird” e encontrei outro.

    A LÍNGUA MÃE
    Não sinto o mesmo gosto nas palavras:
    “oiseau” e pássaro.
    Embora elas tenham o mesmo sentido.
    Será pelo gosto que vem de mãe? de língua mãe?
    Seria porque eu não tenha amor pela língua
    de Flaubert?
    Mas eu tenho.
    (Faço este registro porque tenho a estupefação
    de não sentir com a mesma riqueza as
    palavras “oiseau” e pássaro)
    Penso que seja porque a palavra pássaro em mim repercute a infância
    E “oiseau” não repercute.
    Penso que a palavra pássaro carrega até hoje
    nela o menino que ia de tarde pra
    debaixo das árvores a ouvir os pássaros.
    Nas folhas daquelas árvores não tinha “oiseaux”
    Só tinha pássaros.
    É o que me ocorre sobre língua mãe.

    Será que Miles Davis ficaria feliz em receber um poema de Manoel de Barros como presente de aniversário?

    Oiseau/Bird/Pássaro/Miles Davis/Charlie Parker/Manoel de Barros = canto + encanto

    PS: Não encontrei o Clint. Disseram na locadora que está fora do catálogo da Warner. Mas fiquei muito feliz por reencontrar Manoel de Barros. bjs.

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