Filmar o que não se vê

Assim como o vento ou a eletricidade, que só se tornam “visíveis” pelo efeito que causam (o movimento das folhas, uma luz que se acende), também o espiritual, o sobrenatural, o “além”, só se dá a ver por sua ação sobre a matéria.

Vai daí que o cinema, arte da superfície das coisas visíveis, tem se servido desde suas origens de dois caminhos, basicamente, para mostrar o que não se pode ver: a) os efeitos especiais mais ou menos pirotécnicos (de Méliès a Spielberg); ou b) o que eu chamaria, em falta de definição melhor, de uma mise-en-scène do espanto, um modo de sugerir o sobrenatural pelo efeito que produz na emoção dos personagens.

Um exemplo acabado do primeiro tipo seria Poltergeist. Exemplo supremo do segundo seria Ordet – a palavra, de Dreyer, em que nos convencemos de um milagre sem que haja um único efeito especial.

Claro que é possível, e com frequência acontece, uma combinação entre essas duas vias.

Num cinema de condições modestas de produção, como o brasileiro, optar pela primeira via é uma temeridade. Corre-se o risco do canhestro e do ridículo. Com raras exceções,  só os filmes brasileiros para o público infantil se arriscam nessa linha. Realizar no Brasil um Poltergeist seria impensável.

Até um cineasta como Martin Scorsese quebrou a cara, quando filmou A última tentação de Cristo, ao concretizar certas imagens bíblicas, como a do leão e da labareda falando com Jesus no deserto. Nem sempre é possível tornal literal o que é literário.

Salto no escuro

Todo esse preâmbulo é para falar do novo filme de Jorge Durán, Não se pode viver sem amor.

Se o longa anterior do cineasta, Proibido proibir, atinha-se aos limites de um estrito (e um tanto declaratório) realismo, este representa um corajoso salto no escuro, ou quase. O filme lida com premonições, poderes telecinéticos e, possivelmente, ressurreição.

Em resumo, trata-se da história de um menino (Victor Navega Motta) que vai ao Rio de Janeiro em busca do pai (num movimento oposto ao do protagonista de Central do Brasil). Acompanha-o a moça (Simone Spoladore) que o criou como filho, uma ex-namorada do pai desaparecido. Flashbacks esparsos e meio confusos permitem ao espectador construir até certo ponto o passado desse pai misterioso – e da mãe, mais misteriosa ainda.

Outras duas histórias aparentemente alheias a essa se desenrolam em paralelo: a de um jovem advogado desempregado (Cauã Reymond) e sua amada, uma dançarina de boate (Fabiula Nascimento); e a de um professor universitário (Angelo Antonio) e seu pai taxista (Rogério Fróes).

O modo como essas três linhas narrativas vão se entrelaçar é o grande trunfo do bom roteiro de Durán e Dani Patarra, premiado em Gramado, assim como a atriz Simone Spoladore. Alguém falou da semelhança dessa estrutura “multi-plot” com a dos filmes de Iñarritu roteirizados por Guillermo Arriaga. Mas acho exagero: não há no filme de Durán a compulsão barroca por multiplicar os caprichos do acaso que encontramos nos filmes da dupla mexicana.

Truques e dramaturgia

Um dos méritos de Não se pode viver sem amor, para voltar ao tema do início deste texto, é o comedimento com que lança mão de efeitos especiais para expressar os poderes paranormais do menino protagonista. Consciente da modéstia de seus recursos, Durán equilibra de modo satisfatório os truques técnicos e a dramaturgia, raras vezes descambando para o canhestro.

O filme está longe de ser perfeito. Algumas cenas – sobretudo os flashbacks – poderiam ser mais bem cuidadas, em termos de enquadramento e iluminação. Certos personagens secundários (os amigos do advogado, por exemplo) poderiam ser menos “chapados”.

Mas o que sobressai no conjunto é a saudável audácia de um diretor veterano (que filmou tão pouco: só quatro longas) em adentrar um terreno novo e perigoso, em vez de seguir caminhos já batidos.

A seguir, o trailer do filme.

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14 Respostas to “Filmar o que não se vê”

  1. sueli sevilha rodrigues Says:

    Sabe aquelas aulas imperdíveis, que o mestre não usa a caderneta de presença, porque a sala está sempre cheia….é o seu blog!!!! bjs mto obrigada.Sueli

  2. Adriana Cardoso Says:

    Nossa, esse é o filme que com certeza irei ao cinema assistir, não esperarei dvd pra ver em casa não. Adoro a atriz Simone Spoladore. E o “menino” fofo e lindo? Já é ator de cinema! Bom, o tema sugere coisa interessante. E depois do seu texto brilhante, já vou sabendo um pouco que caminho vou percorrer. Obrigada pela partilha. Mais uma oportunidade de aprender sobre cinema, sobretudo o nacional. Abraço grato e com muito carinho.

  3. franvogner Says:

    Eu gosto deste filme, gosto do elemento fantástico, gosto da atmosfera do filme… há uma “eletricidade” no ar ( e parece que o céu vai cair a qualquer momento) e gosto dessa paisagem da zona norte do Rio que no cinema brasileiro sumiu há um bom tempo. Concordo contigo: os flashbacks são um problema. Mas acho que não é nem problema de artesanato. Acho que são perfeitamente dispensáveis mesmo.
    Abraço
    Francis

    • zegeraldocouto Says:

      salve francis, eu gosto do filme pelos mesmos motivos. quanto aos flashbacks, é possível que você tenha razão. vou tentar ver o filme de novo imaginando como seria sem os flashbacks. abração, volte sempre.

  4. Elson Says:

    Caro Geraldo pelo início do seu post, pensei que iria fazer o comentário sobre o filme “Sobrenatural” (Insidious 2011), que aliás a crítica tá elogiando bastante, dizendo justamente isso, que o horror vem muito mais pelo poder da sugestão que o filme provoca do que ficar dando sustos fáceis!
    Se puder ver, veja para partilhar sua opinião conosco.
    abs

  5. Luiz Augusto dos Reis Says:

    perdoa o “até mais” anterior zé- qdo parou de escrever no blog da folha; afinal eu já sabia estavas a nos embevecer por este aqui.

  6. Cláudia Mogadouro Says:

    Zé Geraldo
    Ótima crítica, nos instiga a ir ver o filme. Vou dar um jeito de ir! Tenho um grupo que discute filmes que estejam em cartaz nos cinemas (gostamos da telona). Vou ver antes e, se eu gostar mesmo, vou sugerir pro grupo discutir. No domingo passado nós nos reunimos e escolhemos o do Peter Weir pra discutir na nossa próxima reunião (dia 29). Será que esse do Jorge Durán se sustenta algumas semanas? Abraços

    • zegeraldocouto Says:

      legal, claudia. é muito bom discutir filmes vistos recentemente. sempre enriquece a leitura, abre novos caminhos. espero que o filme do durán aguente em cartaz algum tempo. obrigado pela visita e pelo comentário. abração, volte sempre.

  7. maria Says:

    Vou assistir porque vc mencionou a audácia do diretor. Depois comento.
    Zé, sempre que passo por aqui, a foto do Wayne Miller me faz pensar sobre a experiência que é assistir a um filme na tela grande. Morei numa cidade pequena onde todos se conheciam e a foto retrata exatamente a alegria das matinês daqueles tempos. Creio, porém, que a nossa algazarra era maior. Lembro das bolinhas de papel voando sobre nossas cabeças, antes do início das sessões e dos cochichos de fica quieto fulano, na escuridão.
    Tudo isso para relatar um episódio ocorrido quando fui ver O Discurso do Rei, no Espaço Unibanco, aqui em SP. O filme já começara quando duas senhoras (velhinhas) entraram. Elas não enxergavam tampouco ouviam, mas falavam. Alto. Na tela o rei gaguejava. Na plateia as velhinhas berravam que estava muito escuro, tropeçavam nas pessoas e estas gritavam para elas se calarem. Um auê só.
    Não sei dizer qual batalha estava mais interessante: a do médico x rei ou das velhinhas x plateia. Claro que uma assistência silenciosa é sempre melhor, mas o estranho (e engraçado, confesso) é que elas não se tocavam.
    Apesar desses pesares e dos tumultos (ruidosos, admito), prefiro a companhia destes desconhecidos a baixar filmes da Internet e vê-los solitariamente. Prometo, na próxima vez, falar do post. Bjs.

    • zegeraldocouto Says:

      maria querida, sempre que você contar histórias saborosas como essas (a da infância e a da sessão do espaço unibanco), está dispensada de comentar o post. obrigado pelo carinho. beijão.

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