Archive for maio \26\UTC 2011

Música para ver, cinema para ouvir

maio 26, 2011

Um dos mais influentes músicos do século 20, Miles Davis, que estaria completando hoje 85 anos, tem mais a ver com o cinema do que geralmente se imagina.

O timbre inconfundível de seu trompete aparece em 48 longas-metragens, fora aqueles em que não foi creditado. Mas ele compôs relativamente pouco para cinema: levam a sua assinatura um punhado de documentários e apenas três longas de ficção: Ascensor para o cadafalso (1957), de Louis Malle, Siesta – Marcas de uma paixão (1987), de Mary Lambert, e Dingo (1991), de Rolf de Heer.

Desses, o mais importante, de longe, é o primeiro. O thriller de Louis Malle deve muito de sua elegância e densidade emocional ao cool jazz de Miles Davis. A trilha, repleta de improvisos do próprio trompetista, marcou época e influenciou boa parte da música dos policiais psicológicos/existenciais europeus e americanos feitos desde então.

Segue aqui um registro precioso: Miles Davis improvisando para a gravação da trilha sonora diante das imagens projetadas do filme. Poucas vezes houve uma comunhão tão perfeita entre música e cinema. O próprio Malle fala sobre isso ao final do vídeo.

Como curiosidade, vai também um trecho de Dingo em que Miles aparece como ator, no papel do trompetista Billy Cross, ídolo do jovem branquelo John “Dingo” Anderson (Colin Friels), que sai do interior da Austrália para tentar a sorte como músico nos clubes de jazz de Paris. Até onde eu sei, o filme não foi exibido comercialmente no Brasil (só em festivais) e ainda não está disponível em DVD.

O filme pode não ser grande coisa, mas a música… Ouça só:

E, só para completar a fatura, um trecho de Siesta, com Ellen Barkin, Isabella Rosselini e a música do homem:

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Filmar o que não se vê

maio 16, 2011

Assim como o vento ou a eletricidade, que só se tornam “visíveis” pelo efeito que causam (o movimento das folhas, uma luz que se acende), também o espiritual, o sobrenatural, o “além”, só se dá a ver por sua ação sobre a matéria.

Vai daí que o cinema, arte da superfície das coisas visíveis, tem se servido desde suas origens de dois caminhos, basicamente, para mostrar o que não se pode ver: a) os efeitos especiais mais ou menos pirotécnicos (de Méliès a Spielberg); ou b) o que eu chamaria, em falta de definição melhor, de uma mise-en-scène do espanto, um modo de sugerir o sobrenatural pelo efeito que produz na emoção dos personagens.

Um exemplo acabado do primeiro tipo seria Poltergeist. Exemplo supremo do segundo seria Ordet – a palavra, de Dreyer, em que nos convencemos de um milagre sem que haja um único efeito especial.

Claro que é possível, e com frequência acontece, uma combinação entre essas duas vias.

Num cinema de condições modestas de produção, como o brasileiro, optar pela primeira via é uma temeridade. Corre-se o risco do canhestro e do ridículo. Com raras exceções,  só os filmes brasileiros para o público infantil se arriscam nessa linha. Realizar no Brasil um Poltergeist seria impensável.

Até um cineasta como Martin Scorsese quebrou a cara, quando filmou A última tentação de Cristo, ao concretizar certas imagens bíblicas, como a do leão e da labareda falando com Jesus no deserto. Nem sempre é possível tornal literal o que é literário.

Salto no escuro

Todo esse preâmbulo é para falar do novo filme de Jorge Durán, Não se pode viver sem amor.

Se o longa anterior do cineasta, Proibido proibir, atinha-se aos limites de um estrito (e um tanto declaratório) realismo, este representa um corajoso salto no escuro, ou quase. O filme lida com premonições, poderes telecinéticos e, possivelmente, ressurreição.

Em resumo, trata-se da história de um menino (Victor Navega Motta) que vai ao Rio de Janeiro em busca do pai (num movimento oposto ao do protagonista de Central do Brasil). Acompanha-o a moça (Simone Spoladore) que o criou como filho, uma ex-namorada do pai desaparecido. Flashbacks esparsos e meio confusos permitem ao espectador construir até certo ponto o passado desse pai misterioso – e da mãe, mais misteriosa ainda.

Outras duas histórias aparentemente alheias a essa se desenrolam em paralelo: a de um jovem advogado desempregado (Cauã Reymond) e sua amada, uma dançarina de boate (Fabiula Nascimento); e a de um professor universitário (Angelo Antonio) e seu pai taxista (Rogério Fróes).

O modo como essas três linhas narrativas vão se entrelaçar é o grande trunfo do bom roteiro de Durán e Dani Patarra, premiado em Gramado, assim como a atriz Simone Spoladore. Alguém falou da semelhança dessa estrutura “multi-plot” com a dos filmes de Iñarritu roteirizados por Guillermo Arriaga. Mas acho exagero: não há no filme de Durán a compulsão barroca por multiplicar os caprichos do acaso que encontramos nos filmes da dupla mexicana.

Truques e dramaturgia

Um dos méritos de Não se pode viver sem amor, para voltar ao tema do início deste texto, é o comedimento com que lança mão de efeitos especiais para expressar os poderes paranormais do menino protagonista. Consciente da modéstia de seus recursos, Durán equilibra de modo satisfatório os truques técnicos e a dramaturgia, raras vezes descambando para o canhestro.

O filme está longe de ser perfeito. Algumas cenas – sobretudo os flashbacks – poderiam ser mais bem cuidadas, em termos de enquadramento e iluminação. Certos personagens secundários (os amigos do advogado, por exemplo) poderiam ser menos “chapados”.

Mas o que sobressai no conjunto é a saudável audácia de um diretor veterano (que filmou tão pouco: só quatro longas) em adentrar um terreno novo e perigoso, em vez de seguir caminhos já batidos.

A seguir, o trailer do filme.

Existe um cinema cristão?

maio 4, 2011

A pergunta acima me veio à mente enquanto assistia a Homens e deuses, de Xavier Beauvois. Não me refiro, é claro, aos épicos bíblicos hollywoodianos, com seus imponentes Moisés, seus Cristos ensanguentados e seus atléticos Sansões. Nem à baixa exploração sentimental-comercial do “filão”, em filmes como os brasileiros Maria, a mãe do filho de Deus e Nossa Senhora de Caravaggio.

Penso, antes, nos dramas espirituais profundos e sublimes de Carl Dreyer (A paixão de Joana d’Arc, Ordet), de Robert Bresson (Diário de um pároco de aldeia, Pickpocket, Mouchette), de Maurice Pialat (Sob o sol de Satã), de Hitchcock (A tortura do silêncio).

É nessa vertente que se insere o belo filme de Beauvois. É essa linha que ele atualiza e problematiza. Sua situação dramática – um mosteiro trapista situado nas montanhas da Argélia dilacerada pela guerra civil – parece se organizar em torno de uma questão essencial: é possível ser cristão num mundo sem Deus, ou no qual o nome de Deus é evocado para justificar o ódio e a violência?

Ser cristão, evidentemente, não é apresentar-se como tal  (católico ou evangélico) da boca para fora, mas sim agir de acordo com ideais de renúncia e fraternidade supostamente ensinados pelo próprio Cristo. Por esse critério, nem o Papa (aliás, muito menos o Papa) é cristão. Mas os frades de Homens e deuses o são, ou tentam ser. São homens de carne e osso, portanto frágeis e contraditórios, mas têm como norte, como meta sabidamente inatingível, a integridade moral e espiritual.

Deus como horizonte

Com sua delicadeza sóbria, seu respeito profundo pelos personagens e sua busca, o filme me fez lembrar de um livrinho do escritor grego Nikos Kazantzakis (autor, entre outros, de Zorba, o grego e A última tentação de Cristo) chamado Ascese. Há no Brasil uma tradução excelente de José Paulo Paes. Pois bem: correndo o risco de uma simplificação grosseira, digo que a “ascese” do título consiste na construção paulatina de Deus pelo homem. Ou seja, Deus não existe a priori, é o homem que o constrói à medida que se eleva moral e espiritualmente, à medida que se desprende do que há de mesquinho e bestial em seu interior. Deus não é. Deus será. É um horizonte a ser buscado, ainda que saibamos que jamais será atingido.

Vale pensar também na canção Se eu quiser falar com Deus, de Gilberto Gil, cuja ideia é semelhante.

Assim como Deus é uma ideia para a qual se volta o desejo humano de elevação, talvez o cinema cristão – ou pelo menos aquele que me interessa – não exista enquanto veículo de uma doutrina pronta, mas como retrato de uma busca em andamento. Homens e deuses faz parte dessa busca.

Só mais uma palavra sobre o filme, cujo trailer segue aqui embaixo. Os atores que encarnam os monges estão todos admiráveis, exprimindo em poucos gestos, palavras e olhares toda uma gama complexa de sentimentos que vai da fé à hesitação e ao medo. Mas dois deles se destacam: o versátil Lambert Wilson, no papel do líder do grupo, frei Christian, e o veterano Michael Lonsdale (ator de Truffaut, Buñuel e Resnais), como o frei-médico Luc.