Brodagem e imersão

Para quem quiser ler boas críticas de Bróder, o primeiro longa-metragem de Jefferson De, recomendo os textos de meus amigos Inácio Araujo (http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2104201110.htm) e Luiz Zanin Oricchio (http://blogs.estadao.com.br/luiz-zanin/).

Aqui vou me limitar a comentar um ou dois aspectos do filme.

O ponto de partida de Bróder me parece bastante esquemático. Num violento bairro paulistano de periferia, o Capão Redondo, três irmãos se reúnem para o aniversário do mais novo (Macu/Caio Blat), o único que permaneceu na “quebrada”. Os outros dois são um futebolista  famoso que joga na Espanha (Jaiminho/Jonathan Haagensen) e um advogado recém-formado que mora no centro da cidade com a mulher (Pibe/Silvio Guindane). Em suma: o pobre, o rico e o classe média.

Há uma circunstância que talvez matize um pouco o equematismo, invertendo o clichê: Macu, o pobre, é também o mais branco dos três. Mas não é por aí que Bróder transcende o simplismo incial e ganha vida, mas sim por sua generosa imersão no ambiente que retrata, por sua porosidade, sua permeabilidade à geografia física e humana daquele pedaço do planeta.

Um boteco, um campinho terroso de futebol, uma viela, uma ladeira, um puxadinho, uma laje pela metade – em suma, o caos topográfico e arquitetônico dos bairros pobres paulistanos -, tudo isso pulsa na tela como um mundo ainda em formação, pleno de promessas e ameaças.

Becos com saída

Também os personagens parecem não estar ainda inteiramente formados, enquadrados em “tipos” previsíveis. Também eles reservam desvãos e fundos falsos. Seus becos, como os do bairro, são sem saída apenas na aparência.

Uma das proezas de Bróder – tornar críveis e envolventes as relações dos três personagens centrais entre si e com seu entorno (a família, o bairro, a cidade), desafio tanto maior quando se lembra que dois dos atores (Haagensen e Guindane) são cariocas – deve muito ao preparador de atores Sergio Penna, que já demonstrara sua competência em filmes tão diversos quanto Carandiru, Bicho de sete cabeças e As melhores coisas do mundo.

Com sua característica modéstia autocrítica, Nelson Pereira dos Santos disse numa entrevista que, quando subia o morro para filmar os pioneiros Rio 40 graus e Rio zona norte, nos anos 50, passava por despachos de macumba e outros “acidentes” da vida cotidiana na favela sem prestar a menor atenção. Já tinha na cabeça o que ia filmar. Assim se passava com muitos dos filmes do Cinema Novo (alguns admiráveis até hoje): a tese prévia se sobrepunha ao ambiente geográfico e humano abordado.

Bróder, de certo modo, faz o contrário disso.

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13 Respostas to “Brodagem e imersão”

  1. Adriana Cardoso Says:

    O texto chama a gente pra ver o filme e já. Sempre ótimo texo. Deve ser muito interessante essa família onde o mais pobre é o mais branco dos 3 irmãos e tudo o q vai se desenrolando por lá. Com seus textos, tenho vencido minha resistência aos filmes nacionais, é uma longa história o porquê disso. Beijos gratos pela oportunidade. Ah, como o curta: “O Ramo” (acertei o título?) é maravilhoso!

  2. zegeraldocouto Says:

    puxa, adriana, é muito bom “ouvir” isso. vencer resistências prévias a qualquer tipo de cinema é uma das metas deste blog. beijo, boa semana. volte sempre.

  3. rachel nunes Says:

    Ainda não vi o filme (irei fazê-lo no próximo final de semana), mas já concordo com sua abordagem, por tudo que já li sobre ele. O que sinto é que, enquanto, como você ressaltou, Bróder faz o caminho inverso de Nelson Pereira dos Santos, ele, de outra maneira, tem o empréstimo do último no certo esquematismo dos personagens e situações, que são a parte teórica de Bróder, enquanto a prática da filmagem prouxe a práxis e a fusão da técnica cinematográfica (com a captação e montagem de imagens mais roteiro) permitiu a emergência da periferia com sua linguagem e crueza para o resultado final. Enfim, antes de ver o filme já tenho umas teses sobre ele…

    • zegeraldocouto Says:

      legal, rachel. resta ver se a visão do filme vai confirmar as suas teses. quanto ao nelson pereira, seus filmes foram se abrindo cada vez mais à descoberta e à troca com os personagens e ambientes filmados. “o amuleto de ogum”, por exemplo, eu considero um filmaço, verdadeiramente popular, transbordante de vida. beijo, volte sempre.

  4. Marcelo MIRANDA Says:

    Legal, Zé. “Bróder” é um filme pelo qual tenho grande carinho e acho um belo trabalho do Jeferson De. Pena que, a pensar no circuito dele, ele deve passar meio batido pelo público.

  5. maria Says:

    Ia assistir a Homens e Deuses, mas decidi ver Bróder depois de dar uma passadinha por aqui. Não me arrependi, o filme é muito bom porque consegue ser interessante mesmo tratando de assuntos aparentemente desgastados (a periferia e seus habitantes, a violência e as drogas, gravidez não planejada, o futebol, o pagode e o rap, os evangélicos). Há várias cenas ótimas, mas eu gostei muito de uma na qual os meninos estão, dentro de um carro, cantando um rap.
    Aliás, a trilha sonora também é muito boa, até para mim que não gosto de pagode tampouco de rap. E bem legal a maneira como ele trabalhou o futebol na trama, pois as cenas do mesmo se resumem ao campinho. O restante da história do jogador se processa através dos diálogos e do triunfo bem sacado, mostrando-nos a importância do texto no cinema. E o elenco está afiadíssimo, não é?
    Zé, gostei do que você escreveu sobre a imersão e também de não ter esquecido das promessas e ameaças. Este filme merece muito ser visto, tá ligado!
    É isso, bjs.

    • zegeraldocouto Says:

      sim, maria, a cena deles cantando no carro é ótima, e a trilha sonora é mesmo muito adequada, muito “orgânica”, embora não seja o tipo de música que, fora do cinema, me agrada. beijo, obrigado pela visita e pelo comentário.

  6. maria Says:

    zé, também não é o meu tipo. Há, porém, no site da CBN – SP – VivaMúsica, um trecho de uma composição sacra do séc. XVIII – Congratulame mihi – do mineiro Lobo de Mesquita – muito bacana. Desculpe, sei que este blog é sobre cinema, mas para quem aprecia música clássica é um achado. Se puder, ouça, acho que você vai gostar. boa noite, bjs

  7. Paulo Haroldo Says:

    Bem, não vi o filme ainda, porque, confesso, não me atrai muito essa história de glamurização da periferia, a humanização forçada da favela, a riqueza de espírito dos pobres, a dicotomia social etc. Parece que o cinema pretende resgatar valores em um espaço tomado por pobreza e marginalidade, como se a favela (ou “comunidade”, para abrandar o “preconceito”) fosse rica em si mesma e devesse ser preservada, em vez de erradicada ou urbanizada de verdade. Por que dar um “olhar humano” sobre a periferia em vez de procurar melhorá-la, dignificá-la, combatendo seus problemas estruturais? Já me cansei de tantos filmes com esse mesmo tema como base, e não me parece que alguns truques de roteiro (como a citada inversão de rapaz branco no lugar do negro) possam salvar a situação, porém, ainda preciso ver o filme… rsrs.
    Zé, sinto sua falta no caderno de esporte da Folha… Abração!

    • zegeraldocouto Says:

      desculpe, paulo, mas preconceito é bem a palavra. sem aspas. pois ninguém falou em glamourização da periferia. foi você que, sem ter visto o filme, projetou nele ideias pré-existentes. penso que o “olhar humano” deve ser lançado sobre todas as coisas, pois somos humanos, não somos? e não se trata de humanizar a periferia, pois ela já é composta de seres humanos. identificar favelas e bairros pobres com marginalidade é, sim, uma visão preconceituosa. também sou a favor de urbanizar e/ou erradicar as favelas, mas isso deve ser feito junto com os moradores, e não contra eles. caso contrário, vai se tratar de um pogrom, de extermínio, de “solução final”. obrigado pela atenção e pelas palavras gentis sobre minha coluna de esportes. abração, volte sempre.

      • Paulo Haroldo Says:

        Zé, quando eu disse humanizar, eu me referi à situação, o local, a infraestrutura… não as pessoas, logicamente, que são bem humanas. Ou a vida nas favelas é tão digna quanto em lugares com água, esgoto, alvenaria bem feita etc? É isso o que o cinema, nessa estética pró-favela, parece querer mostrar: que ali tudo deve continuar como está, pois existe uma riqueza humana que compensa a falta de estrutura. Eu não concordo com isso. Essa realidade que o cinema cansa de mostrar a gente vê todos os dias. E a marginalidade… bem, não querendo ser preconceituoso mas apenas refletindo a realidade, provém mais da periferia. Infelizmente… e não é glamurizando a situação que ela vai mudar.

  8. zegeraldocouto Says:

    ok, paulo. mas acho que não é o caso deste e de alguns outros filmes. eles não deixam de mostrar que a situação tem que ser mudada. abração.

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