De Palma e o bullying

O bullying não é um fenômeno novo. O que é novidade é a adoção generalizada (e colonizada) desse termo importado que acabou por eliminar uma série de palavras do português que poderiam matizar mais o assunto, caso a caso: intimidação, agressão social, maus-tratos, exclusão, rejeição, opressão do grupo, crueldade psicológica etc.

O caso mais antigo de bullying de que tenho notícia é o do patinho feio. O conto de Andersen, aliás, pode ser lido como uma maneira de sublimação do sentimento de rejeição e humilhação pelo grupo sofrido por muitas crianças e adolescentes. O patinho feio tem a sua revanche a longo prazo, tornando-se um lindo cisne.

O problema é que nossa época é mais imediatista, a vingança tem que ser urgente. E as crianças não leem mais Andersen, mas navegam pela internet, expondo-se a uma miríade de referências e estímulos que elas não têm condições de processar e elaborar.

Pronto, já falei demais.

Para compensar esse palavreado apressado e provisório, aqui vai a sequência de abertura daquele que talvez seja o mais belo filme sobre o tal bullying, feito quando a palavra ainda não tinha entrado na moda. O engraçado é que o título em portugês acrescentou ao original um adjetivo que é, por si só, uma expressão de segregação, de preconceito contra o que é diferente.

Estou falando, é claro, de Carrie, a estranha, de Brian De Palma. Passa a toda hora no Telecine Cult. Vale a pena ver, nestes tempos sombrios.

Anúncios

42 Respostas to “De Palma e o bullying”

  1. James Cesar M A Souto Says:

    Perfeita a lembrança com analogia, JGC! CARRIE, junto a poucos na história do cinema, exemplificam com maestria esta forma particular – e ainda intensa, em nossos dias -, de sadismo, na sociedade e no cinema.

  2. zegeraldocouto Says:

    sim, james. esse filme é um clássico menos valorizado do que deveria. como, aliás, acontece com outros do de palma. abração, obrigado pelo comentário.

  3. AndreGustavo Says:

    A trilha é Pino Donnagio, que fez outras com o diretor, Vestida para matar, Blow out, todas muito boas. Quanto lirismo nesse começo de filme; quando corta, creio que surge um elemento marcante no filme – sangue.
    Sempre achei que o rosto de Sissi Spacek merecia mais espaço no cinema, sobretudo nas últimas duas décadas, além das coadjuvantes em JFK do Stone, e História real, do David Lynch. Abração Zé!

  4. zegeraldocouto Says:

    bem lembrado, andré. aliás, as duas coisas: as trilhas do pino donaggio e o sangue. é, salvo engano, a primeira menstruação da carrie. e concordo com você: ela é uma atriz extraordinária, que deveria ser mais aproveitada pelo cinema. abração, obrigado pela visita e pelo comentário.

  5. AndreGustavo Says:

    E salvo engano meu é isso mesmo, a primeira menstruação dela. Foi traumático, assim como o “reencontro”, no baile, aquele trote bizarro das meninas. Até tinha feito o trocadilho meio óbvio, que vale pra menina Carrie: RANGING BULL-YING (risos). Ah, ela trabalhou antes com Martin Sheen, no primeiro filme (acho que é o primeiro) de Terrence Malick (que tem filme no forno, o primeiro desde Novo Mundo pelo que ouvi, com Sean Penn e Brad Pitt). E de fato, Sissi sempre foi muito talentosa, poderia ter tido mais papéis como Diane Keaton ou Meryl Streep – isso não cabe a mim julgar (risos), sou só um fã. abraço!!

  6. Pedro Souza Says:

    Zé, permita-me fazer uma sugestão, se houver interesse de sua parte em gerar visitação /tráfego no blog. É o de não vir no e-mail a íntegra do texto, apenas uma parte ou mesmo só o tema da crônica. Assim, os muitos interessados, irão gerar page-views, que podem ser úteis em eventual interesse por patrocínios e apoios publicitários.
    Ok ? Apenas uma reflexão de um fã que é publicitário e torce por você.
    abraço

  7. Luiz Augusto dos Reis Says:

    ei zé, estou com o pedro acima, conquanto como ele nada saiba de teus interesses- mas, um tão genial blog não ter patrocinadores é de certa forma assustador…

  8. Ledusha S Says:

    assino embaixo. e em cima, se precisar. beijos, zé, sempre muito sensíveis e inteligentes as suas colocações, obrigada.

  9. Humberto Says:

    Zé, quem sou eu para opinar sobre filmes e artes, mas o tema – bullying, levantado por vc, neste momento, é de suma importância. Fiquei muito interessado no filme e farei o possível para assisti-lo. PARABÉNS PELO BLOG.

  10. ceuvagemichiles Says:

    …”minha vingança será maligna” Vampiro brasileiro-Chico Anisio

  11. Marcelo Lyra Says:

    Bem lembrado Zé. Dois acréscimos.
    1) O bullyng está presente em quase todos os filmes americanos que falam sobre adolescentes, a começar pelo American Graffiti do Lucas. Acho curioso como eles parecem aceitar isso como uma coisa normal, meio como nossos ridículos trotes que normalmente são mais violentos em faculdades que deveriam ter um mínimo de respeito humano como as de medicina.
    2) No Brasil adoram os termos em inglês. Me parece colonialismo puro. Adoro os portugueses, para quem site é sítio, mouse é rato e deletar continua sendo apagar!

    • zegeraldocouto Says:

      valeu, marcelo. também gosto da resistência lusa aos termos importados sem necessidade. mixagem é mistura, por exemplo. mas não sejamos puristas, né? senão, não teríamos termos saborosos e já abrasileirados, como beque, gol e futebol. abração, volte sempre.

      • Marcelo Lyra Says:

        Perfeito, Zé, sem purismo. Pessoalmente prefiro mouse que rato. Mas sítio é muito mais significativo que site! abração.

      • Marcelo Lyra Says:

        Mas pensando bem, o exemplo do futebol é dúbio, já que é um esporte de origem britânica, todos os termos foram importados. Acho ótimo aportuguesar os termos ingleses. Até poucas décadas se falava goal keeper (não lembro como escreve) em vez de goleiro (que bela palavra surgiu) e centroavante tinha outro nome inglês que esqueci.
        Deletar eu acho bacana, por mais que apagar já estivesse de bom tamanho, mas usar site no lugar de sítio é um modismo meio macaquice.

  12. Diego Gutierrez Says:

    Eu achei a crítica bastante pertinente mas discordo em um ponto. Os tempos são outros, mudaram, o acesso à informação é excel, não há como evitar ou negar isso, porém nossas crianças, ainda que não cheguem ao mesmo ponto de vista que nós, supostamente adultos pensantes, não consigam ou sejam incapazes de interpretar ou chegar a consensos sobre o que as rodeia.
    Este entendimento pode não ser consonante com o que temos por absoluto (o que por si só é preocupante, crenças no absoluto), mas com sua pequena bagagem fazem inferências e tiram suas conclusões em base nessas. Cabe a nós, como mediadores, escutar essas opiniões e orientar da melhor maneira possível, não acredito num sistema em que as colocamos em bolhas e lhes damos tudo mastigado e finalizado, precisam sim, estas crianças, filtrar e aprender como podem fazê-lo.
    De qualquer forma, parabén pela crítica e adorei a escolha de Carrie para exemplicar o fenômeno, adoro o filme, Sissy Spacek também. Sucesso.

    • zegeraldocouto Says:

      caro diego: pelo que entendi, não discordamos. concordo com o que você diz. em nenhum momento eu sugeri que a saída seria um cerceamento do acesso à informação, muito menos um fechamento das crianças em bolhas ou redomas. o que faz falta justamente é a mediação, que aparentemente não tem sido feita a contento nem pelos pais, nem pela escola. abraço, obrigado pela visita e pelo comentário.

      • Diego Gutierrez Says:

        Ah, isso é bem verdade, os pais querem cada vez mais se ausentar do processo, culpar escolas, professores, padres, profetas, enfim, tudo o que for possível, tem sido a melhor alternativa.
        Isso é terrivelmente lamentável e constatável ao nosso redor o tempo todo.
        Novamente parabéns e peço desculpas, não estou em condições de levar a discussão mais adiante, o final de semana foi forte, ainda me recuperando. HAHAHAHAHAH.
        Todavia, concordo contigo então, e me deixaste com vontade de rever Carrie. (não colocarei “a estranha” aqui por motivos óbvios.)
        Abraços.

  13. Vítor Says:

    Peguei o filme na locadora, sou fã do De Palma, mas Carrie eu ainda não tinha assistido, depois de visto comento aqui, é uma tema que anda quente na imprensa, que sempre aconteceu nas escolas e também há de se salientar o mundo dito adulto também é cheio de preconceitos e opressões, quem sabe um dia todos seremos um pouco antropólogos e, assim, entenderemos e seremos mais tolerantes com as diferenças.

    • zegeraldocouto Says:

      sim, vítor. o mundo adulto também é cruel, mas a diferença é que as crianças e adolescentes são mais frágeis para se defender e até mesmo para entender o que se passa. depois nos conte o que achou do “carrie”. abração, volte sempre.

  14. Vítor Says:

    é verdade, as crianças são mais frágeis e em formação ainda, tens razão. abração!

  15. Jeferson Araújo Pereira Says:

    Tomei conhecimento do seu novo blog no site do Sérgio Alpendre.Fico feliz por você estar na ativa novamente: é bom para você e para nós, seus leitores.Abraço e boa sorte.

  16. maria Says:

    “Um grande garoto” é um filme que também trata desse tipo de violência. “Carrie”, claro, é mil vezes melhor, conforme podemos ver nesta linda abertura. Bela escolha. Na verdade, citei-o porque, certa vez, minha sobrinha, como o menino do filme ou o personagem do Hugh Grant (não me lembro), insistia em dizer que o verso “No man is an island” era do Bon Jovi (na música Santa Fe) e não do John Donne. E experimenta perguntar sobre Beethoven. Muitos dirão que é o nome daquele cachorro. É, o imediatismo de nossa época, cujo
    desprezo pela leitura e pela informação mais acurada produz esses e outros equívocos.
    Gostei de seu texto porque levou-me a refletir mais sobre esse tipo de intimidação. Creio que na infância e adolescência ele é bem explícito, porém não desaparece na fase adulta quando se transmuta no que chamamos de assédio moral e sexual.
    Bom, fazendo jus ao seu blog, falta falar de livros. Sei que já falei demais, mas há um capítulo dedicado a Emily Dickinson no ótimo “O Anticristo” do Augusto de Campos (infelizmente esgotado):
    “No reino das letras e das artes onde as vaidades e os exibicionismos conhecem todos os truques e usam de todas as chantagens, da sentimental à política para as “ego trips” do sucesso, fenômenos como o de emily dickinson chegam a ser quase incompreensíveis. Eu me pergunto quantos representantes da espécie animal chamada homem serão capazes de captar tanta grandeza ética e estética.”
    “emily não teve nenhum livro editado em vida … preferiu o difícil anonimato a trair a poesia”
    Belo convite para conhecê-la, lê-la ou relê-la, não é? Zé, talvez um pouco de poesia nos ilumine “nestes tempos tão sombrios”.
    Desculpe a prolixidade. Beijo grande

    • zegeraldocouto Says:

      maria: a história do bon jovi é muito boa. tive que rir, apesar de o assunto ser sério. como sempre, muito pertinentes as suas reflexões e associações. só uma dúvida: o livro do augusto de campos não é “o anticrítico”? e sim, a emily dickinson é uma tremenda poeta. vale a pena lê-la. beijão, obrigado pela visita.

  17. Adriana Cardoso Says:

    Oi Zé! Qdo digo q seus textos são uma aula pra mim, não me engano mesmo e aprendo sempre. Q texto ótimo sobre um assunto q virou “moda” e tomara q não saia da moda antes de ser estudado como deve ser: comportamento de um grupo sobre um indivíduo. Sou professora e vejo o qto crianças, mesmo as menores, são capazes de intimidarem, rejeitarem ,enfim praticarem o tal bullying. Excelente lembrança desse filme q teve a revanche dela, a Carrie, num massacre contra todos, até a mãe(o horror!). E qto a história do Patinho Feio, só vc mesmo. Maravilha de dica, certeira sobre o assunto. Pena q hj as escolas prefiram as salas de “Informática”, aos “contos de fadas”, q trazem de forma lúdica (principalmente as adaptações q se tornam acessíveis à todas as idades) assuntos pertinentes e tão comentados. Adorei. Obrigada pelo texto e por sua generosidade, sempre. Beijo grande.

  18. zegeraldocouto Says:

    sou eu que tenho de agradecer, adriana. é sempre bom ver o quanto você enriquece as coisas que a gente escreve. beijo grande, volte sempre.

  19. Célio Says:

    Zé , Carrie é realmente um filmaço, pena que faz muito tempo que não vejo um filme novo do De Palma. Quanto ao termo “bullying’ junto com o colinialismo evidente parece que ele fere menos os ouvidos, por soar diferente fica como algo distante, pouco tangível – a não ser qdo explode como a tragédia de realengo – mas iestou fazendo psicologia de botequim, seu post estava ótimo como sempre.Forte abraço.

  20. Vítor Says:

    Fica como dica para os leitores aqui do Blog e como sugestão para um futuro post o belíssimo filme “Deixe ela Entrar” com direção de Tomas Alfredson, filme sueco que pouco tempo depois teve sua versão americana. Lembrei dele pois também trata do tema do post aqui, ou seja, um garoto que sofre pra caramba na escola e é protegido por uma vampira.

  21. maria Says:

    Ops, agora sou eu que estou rindo por aqui. Agradeço sua leitura atenta que corrigiu o erro do meu imediatismo: é mesmo “O anticrítico”, o livro de um dos irmãos Fields (era assim que uma professora chamava os irmãos Campos). Diferente da brincadeira com o sobrenome dos escritores, o termo “bullying” parece que já foi aceito como se não houvesse similar em português. Aqui parece a casa da mãe joana, vamos aceitando tudo.
    Mudando de assunto. Parabéns, lindo texto sobre o Lumet na CartaCapital. E Homens e Deuses, você já viu? bjs.

    • zegeraldocouto Says:

      oi maria, não vi “homens e deuses” ainda. obrigado pelo elogio ao textículo da carta capital. o espaço lá é mínimo, sempre fico com a impressão de que o essencial ficou de fora. beijão, volte sempre.

  22. rachel nunes Says:

    Pouca gente ressaltou no infeliz rapaz que tomou a loucura como método sua conexão com elementos da cultura de massa, particularmente estadunidense.

    Mais que “fazer justiça” ou “vingar os fracos” (coisas absurdas, mas o rapaz não tinha juízo, o que fazer) ele pôs em destaque a fama midiática e termos fundamentalistas claros à cultura de massa estadunidense (toda sua obsessão documental e suas imagens que tanto ratificam a de outros loucos conhecidos dos EUA), que tem e deve ser vista como uma das influências para a mente conturbada do assassino ter chegado às vias dos trágicos fatos, e como essas influências permanecem em nosso horário nobre televisivo, por exemplo, com aquelas dezenas de filmes hollywoodianos onde “heróis” “fazem justiça” com as próprias mãos, uma vez que a sociedade não parece ter mais forças para lutar contra “o mal”.

    Ah, Zé, publiquei um texto hoje sobre Contracorrente, o filme peruano. Veja lá em http://rachelsnunes.blogspot.com.

    Beijos!

  23. sahelcavalieiri Says:

    Prezado,

    Parabéns pelo seu texto e sua comparação exata do filme “Carrie” como sendo um ato de Bullying. De fato a maioria dos filmes de psicopatas é caso de Bullying. Gostei do texto simples.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: