Um homem sério

Sidney Lumet, que morreu hoje aos 86 anos, não foi um grande “autor” de cinema – ou seja, não deixou uma marca pessoal, intransferível, na expressão audiovisual -, mas foi um diretor importante, que realizou filmes fundamentais para uma compreensão mais viva e abrangente da América contemporânea.

Foi um dos primeiros cineastas de alta qualidade saídos da televisão. É bom lembrar que a TV nos Estados Unidos surgiu do cinema (diferentemente do que ocorreu no Brasil, onde ela derivou principalmente do rádio). A entrada de Lumet em Hollywood significa então uma espécie de retorno. Hollwood é modo de dizer, pois ele filmou quase sempre em Nova York.

Prolífico e competente, Lumet esquadrinhou a sociedade e as instituições americanas num punhado de filmes de grande impacto. Abordou o sistema judiciário (em Doze homens e uma sentença, seu longa de estreia, e em O veredito), a corrupção policial (Serpico), a insanidade urbana (Um dia de cão), o perigo nuclear (Limite de segurança), a televisão (Rede de intrigas), o marketing político (Power, filme interessantíssimo, infelizmente pouco visto no Brasil, país onde as técnicas marqueteiras de fabricação de políticos atingiriam um patamar inimaginável).

Mas Lumet tinha grande sensibilidade também para os dramas mais anônimos, para as vidas à margem, conforme mostrou num filme “menor”, como O peso de um passado (sobre a família de um ex-militante pacifista foragido da polícia por conta de um atentado que ele cometeu contra uma fábrica nos anos 60), e naquela que talvez seja sua obra-prima, O homem do prego (1964), em que Rod Steiger encarna o penhorista do título, um judeu de meia idade solitário e atormentado pelas lembranças do Holocausto.

Se nos filmes de Lumet o “tema”, o roteiro e os atores sempre prevalecem sobre o estilo pessoal do cineasta, isso não chega a ser um demérito. Ao contrário, é uma manifestação de sobriedade, pudor ou ausência de vaidade.

A cena a seguir, de O homem do prego, talvez ilustre bem essa sua disposição de espírito substantiva, sóbria, diante da vida e das criações humanas. Nela, o protagonista tenta explicar a um jovem as razões do “sucesso” dos judeus no mundo do comércio.

O vídeo é sem legendas, mas o filme está disponível em DVD. Vale a pena conferir.

Como brinde extra, aqui vai uma cena que considero encantadora de O peso do passado. Quase uma epifania ao som de James Taylor, com direito a um River Phoenix adolescente.

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17 Respostas to “Um homem sério”

  1. Ewerton Paulino Says:

    é triste completar anos no mesmo dia que o sidney lumet morre. e como você mesmo ressaltou ele não foi um cassavetes, não deixou uma marca, mas foi um diretor extremamente certeiro, funcional, com bom senso, digamos assim, em termos gerais. eu considero tanto o primeiro filme quanto o ultimo como excelentes, então pra mim ver um cara começar e terminar com obras tão boas é impressionante. ele fez muito bem em vida.

  2. zegeraldocouto Says:

    isso mesmo, ewerton. a definição é ótima: um diretor certeiro, funcional, com bom senso em termos gerais. também gosto muito do primeiro e do último filme dele. de fato, uma bela carreira. abração, feliz aniversário.

  3. Jonas Says:

    Grande texto, Zé. Como você disse, ele nunca foi um grande autor, mas era bastante regular, por isso nos lembramos de tanta coisa boa. Gosto muito do Longa Jornada Noite Adentro, inspirado na peça maravilhosa do O’Neill e com uma interpretação fenomenal da Katharine Hepburn. Aliás, acho que esse filme nunca chegou a sair em DVD no Brasil.

    E fiquei feliz de você mencionar o Limite de Segurança, essa espécie de versão séria de Dr. Strangelove. Curiosamente, se não me engano os dois filmes são do mesmo ano. Se o Lumet tivesse esperado um pouquinho mais, talvez o filme do Kubrick, pelo sarcasmo tão genial, inviabilizasse comercialmente o seu. Mas é um bom longa, com atuação sempre competente do Henry Fonda.

    • zegeraldocouto Says:

      é verdade, jonas. “limite de segurança” é uma boa ilustração do cinema de lumet: um tema relevante, tratado com seriedade e competência, levado por bons atores bem dirigidos. não vi, infelizmente, o “longa jornada…”. lamento principalmente porque gosto muito da peça e sou fã de carteirinha da katharine hepburn. abração, obrigado pela visita e pelo comentário.

  4. rachel nunes Says:

    É como você escreveu em seu primeiro parágrafo: Sidney Lumet nunca foi um “autor”, mas um competente diretor formado ainda pelo rescaldo sistema de estúdios, o que significa dizer que foi um técnico a serviço dos produtores, sem pretensões “artísticas”, o que não o impediu de realizar bons filmes, como os citados. Mais um bom velhinho que se vai…

    • zegeraldocouto Says:

      pois é, rachel. e com isso o cinemão americano vai ficando cada vez mais rasteiro e anódino, espetáculo pirotécnico sem inteligência e sem alma. beijo, obrigado pela visita.

  5. maria Says:

    Quem sabe o estilo dele fosse fazer os outros brilharem? Al Pacino em “Um dia de cão” que o diga. E você tem razão, não há nenhum demérito nisso. Talvez, nos dias de hoje, seja até uma qualidade. Gostei dos vídeos, especialmente de “O homem do prego”, adoro Rod Steiger.
    E por falar em diretores, uma piadinha da Meryl Streep sobre aqueles que se consideram deuses:

    uma ótima semana. bj

    • zegeraldocouto Says:

      que legal, maria. obrigado pelo comentário, sempre generoso, e pelo brinde que nos deu. a piada da meryl streep e a dignidade do peter o’toole enriqueceram este espaço. beijão, volte sempre.

  6. Roberto Gervitz Says:

    Querido Zé,
    muito bom o seu texto sobre o grande Lumet. A tonica dos comentários a respeito de sua morte no entanto, trazem um ranço que me desagrada, e cuja raíz está numa mitologia antes de mais nada francessa que é a do autor. Sinceramente, dá para contar literalmente nos dedos aqueles que como você diz, “deixaram uma marca pessoal, intransferível, na expressão audiovisual”. O resto é marketing e mistificação, para a qual, cada vez mais me convenço, que muito contribuíram, os franceses. Considero Lumet um cineasta de primeira grandeza,” Uma jormada Noite Adentro” é uma obra que pode ser colocada ao lado de qualquer filme considerado “de autor”. Por que Howard Hawks é um autor e Lumet não é? Quem decide essas coisas? O que é exatamente deixar uma marca pessoal intransferível? É essa a finalidade de um diretor? É isso pelo que ele deve lutar? É claro que a originalidade, a invenção devem ser a uma meta, mas estas podem se dar de forma mais ou menos virtuosistica e narcisista. Viva o Lumet que ainda escreveu um ótimo livro que recomendo: Fazendo Filmes. Abraço grande, Roberto

    • zegeraldocouto Says:

      você tem toda razão, roberto. por isso eu disse no meu texto que “não era nenhum demérito” o fato de lumet não ter deixado “uma marca pessoal, intransferível, na expressão cinematográfica”. procurei destacar até o que há de positivo nessa postura discreta dele, de colocar seus saberes a serviço do drama narrado, da questão humana discutida. talvez eu também ainda tenha um ranço dessa tradição francesa do “autor” e valorize em excesso os que alargam as fronteiras da linguagem cinematográfica, mas estou aprendendo a prezar também os cineastas que simplesmente fazem bons ou ótimos filmes, como é o caso de lumet. grande abraço, obrigado pela enriquecedora contribuição ao debate. volte sempre.

      • Roberto Gervitz Says:

        É um prazer trocar idéias com você, Zé. Só queria fazer um reparo à sua resposta. Você escreve: “estou aprendendo a prezar cineastas que simplesmente fazem bons ou ótimos filmes, como é o caso de Lumet”. Sei que essa conversa dá “muito pano pra manga” mas a não ser em casos óbvios onde a há claramente uma linguagem muito pessoal desenvolvida pelo diretor e, na outra ponta onde se encontram os filmes claramente industriais, os limites entre o que é autoral e o que não é, são muito discutíveis. E depois, cá entre nós, qual o sentido dessa discussão? Quando você diz “simplesmente fazem bons ou ótimos filmes”… simplesmente? isso já é tão louvável e difícil! Um abraço grande

    • zegeraldocouto Says:

      roberto, querido: acho que não fui claro. esse “simplesmente” era irônico. eu devia tê-lo escrito em itálico ou entre aspas. mas também não precisa defender tão veementemente o cinema dos “não-autores”. viva bergman, antonioni, godard, glauber e sganzerla. o cinema precisa de todos. abração.

  7. Marcelo Cordeiro Says:

    Justa homenagem ao grande mestre. O Homem do Prego é um dos melhores filmes que já vi. Uma atuação poderosa (talvez a melhor de sua carreira) de Rod Steiger.
    Grande diretor de atores, que o digam Al Pacino, Philip Seymor Hoffman, Paul Newman, Michael Caine, Christopher Reeve, William Holden, Peter Finch, entre outros…
    Gosto muito de seu último filme, Antes que o Diabo Saiba Que Você Está Morto.

    Abraços

    • zegeraldocouto Says:

      bem lembrado, marcelo. e ainda: henry fonda, marlon brando, river phoenix, jane fonda, joanne woodward, anna magnani… também gosto muito de “antes que o diabo saiba…”. como disse um amigo, é bonito ver uma carreira que começa e termina com belos filmes. abração, volte sempre.

  8. Giovanni Says:

    Bela volta, Zé!
    vida inteligente na blogosfera!
    …sobre o Lumet: bela lembrança de um filme(menor?), “O Peso de um Passado”….gosto muito desse filme, e o River Phoenix hein? tinha tudo para se tranformar em um grande ator…
    abração do amigo peladeiro. Gio.

    • zegeraldocouto Says:

      salve gio, o melhor ala esquerdo dos peladeiros da ilha. pois é, o river phoenix partiu antes da hora. obrigado pela visita e pelas generosas palavras. volte sempre. grande abraço.

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