Bruna auto-ajuda ponto com

Bruna Surfistinha é um sucesso estrondoso: em dez dias de exibição, ultrapassou a marca de um milhão de espectadores.

Não é difícil explicar o “fenômeno”, pois de fenômeno ele não tem nada. O filme de Marcus Baldini simplesmente realiza com eficiência a junção de vários filões de sucesso garantido.

O mais evidente deles é o dos filmes sobre celebridades de nosso tempo: Cazuza, Meu nome não é Johnny, Dois filhos de Francisco, Jean Charles etc. (Chico Xavier poderia entrar também, mas corre em outra raia; por outro lado, poderíamos acrescentar sucessos estrangeiros como A rede social e A rainha) Todos eles “baseados em fatos reais”, com aqueles inevitáveis letreiros finais informando o destino dos personagens.

Mas há também a intersecção com uma tradição muito antiga, a das obras sobre prostituição, e outra muito atual, a do mundo de relações mediadas pela internet.

Prostituição sem glamour

A prostituição na era da internet: eis uma frase publicitária possível para Bruna Surfistinha. Se há um mérito no filme, é o de desglamourizar a profissão mais antiga do mundo, mostrando-a como um frio comércio igual a qualquer outro. O bordel em que Raquel/Bruna se emprega é uma firma meio precária, mas regida por metas e padrões de eficiência capitalista. A cafetina (Drica Moraes) é uma pragmática executiva. Estamos longe da putaria lírica dos “castelos” dos romances de Jorge Amado.

De certo modo, a narrativa reitera o esquema de tantas ficções sobre moças que “caíram na vida” por circunstâncias familiares, mas o esquema aqui sofre um ligeiro deslocamento. Primeiro, porque a protagonista não é pobre, e sim de classe média. Segundo, porque não é particularmente oprimida em casa, nem sofreu propriamente um abuso, um estupro ou coisa do tipo.

Ideologia do sucesso

Há em Raquel/Bruna uma insatisfação difusa, apenas catalisada pelo episódio do colega que coloca suas imagens íntimas na internet. O que ela quer, ao sair de casa para a vida, é “não depender de ninguém”. É, em outras palavras, “vencer na vida”. A ideologia do sucesso é a moral amoral dessa “história de uma vencedora”.

É nisso que reside, a meu ver, o que o filme tem de mais conservador e conformista. Toda a trajetória de Bruna se justifica pelo desejo de independência profissional e financeira. Depois de ganhar o seu dinheiro e servir ao mercado, seja como fornecedora de serviço especializado ou como consumidora (de roupas, de jóias, de cocaína), ela pode deixar a prostituição e se tornar dona-de-casa. Trocar o vício pela virtude.

Se, entre todos os gêneros que se entrecruzam em Bruna Surfistinha, fosse necessário definir um, eu diria que é um filme de auto-ajuda, com uma vaga mensagem de “acredite nos seus sonhos” ou “faça as coisas ao seu modo” e “você vencerá”. Se precisar abrir as pernas para isso, tudo bem. Se puder publicar um best seller, melhor. O importante é que depois, com o dinheiro ganho não importa como, você se “legalize” e se integre à sociedade “bem”, com marido, filhos, carro na garagem,  flores na janela e cartão de crédito no bolso.

Ah, faltou dizer que Deborah Seco é ótima em todos os sentidos, que “se entregou ao papel com garra” e todos esses clichês que dizemos quando não queremos falar sobre o que interessa.

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55 Respostas to “Bruna auto-ajuda ponto com”

  1. anita Says:

    enfim, todos os pecados serão perdoados se a má menina virar uma boa menina ….

    • zegeraldocouto Says:

      pois é, anita. ninguém está sob julgamento aqui. só não gosto é que a redenção venha pelo sucesso financeiro e que o “bem” seja a vida conjugal burguesa. beijo, obrigado pela visita.

  2. vera nilce Says:

    é Zé, hj está cheio de ‘brunas” usando o mesmo sistema pra poder atingir mais rapidamente o “sucesso” (que vem a ser ganhar dinheiro e, de preferência atingir a fama, mesmo que seja na cama )…nao li o livro, se tiver, nao vou ver o filme , mas vim ler o que vc tinha a falar sobre o assunto. Uma coisa que acho interessante é que hoje este tipo atitude não diminui as mulheres perante os homens, desde que elas tenham um belo par de seios e de bundas. Um homem estes dias me falou que homem prefere mulheres que não sejam tão inteligentes, que eles têm medo destas… então que as que resolvem usar o corpo o façam com competência e consigam a realização pessoal para a felicidade delas. O importante é que se façam respeitar e não entrem em parafuso.

    • zegeraldocouto Says:

      oi vera, se você deixar de ver o filme por causa do meu blog, vão dizer que estou jogando contra o cinema nacional. não quero influenciar ninguém, mesmo porque não sou dono da verdade. se puder, veja o filme e depois comente o que achou. beijo, volte sempre.

  3. jose alfredo Says:

    mas no BS2 ela vai ter uma recaida fatal, vai abrir um superbordel na Colombia e vai se tornar amante e confidente de El Nabuco II, o narcopolitico mais poderoso da retro-rebeliao latinoamericana…

    • zegeraldocouto Says:

      zé alfredo, é uma pena que nossos roteiristas/diretores/produtores interessados na rentabilidade imediata de seus “produtos” não tenham essa imaginação toda. seria muito mais divertido. abração, volte sempre.

  4. eduardo valente Says:

    muito boas sacadas, zé. a proximidade do filme com o Rede Social é bem impressionante mesmo.

    • zegeraldocouto Says:

      legal que você também achou isso, duda. mas percebo que praticamente não falei do filme “em si”. você já reparou como é difícil não só filmar o sexo como até mesmo comentar o sexo no cinema? abração, obrigado pela visita.

  5. AndreGustavo Says:

    Lendo o comentário crítico, lembrei imediatamente de Showgirls, esperado como um filme de nudez ou mera sacanagem, e interpretado assim por muitos depois, numa dimensão limitada. O filme tem nudez do começo ao fim, e zero em tesão. O sexo é dessexualizado, tudo é frieza rosa e brega entre estátuas de gelo, é uma amostra muito mais da decadência do poder e da banalização e falta de interesse no assunto (pouco antes o mesmo cineasta fizera o “hot” Instinto Selvagem).
    O diretor (Verhoeven) nunca foi perdoado por Showgirls. ABraços Zé!!

    • zegeraldocouto Says:

      caro andré: interessante a lembrança do “showgirls”, filme que a meu ver foi muito mais fundo na descrição da coisificação do sexo, ou, em outras palavras, da deserotização do sexo quando transformado em mercadoria. “bruna surfistinha” poderia ter ido mais fundo nesse aspecto, mas optou por ficar na superfície, talvez para agradar também os voyeurs que quisessem ir ao cinema simplesmente para ver deborah seco na cama. abraços, volte sempre.

  6. Mari-Jô Zilveti Says:

    Zé Geraldo, ei-lo, como sempre, direto ao ponto. Seguinte: a melhor coisa que você fez foi criar o Blog do Zé Geraldo, meu caro. Ficar sem sua leitura por 3 semanas é penoso. E agora só falta alguém lhe dar a mão pra registrar seu domínio e ficar com zegeraldo.com.br.
    Essa sua nova casa, meu caro é infinitamente melhor. Pois pensar livre pensar só com seu domínio, sem depender de idiossincrasias de superiores. Parabéns e obrigada por brindar-nos com seus imprescincíveis artigos, posts, textos e o que mais precisar chamar.
    Abraços de zeros e uns,

    Mari-Jô Zilveti
    http://nomadismocelular.com.br

    • zegeraldocouto Says:

      mari-jô, querida, sua palavra generosa me comove. só posso agradecer e dizer que conto com você neste recomeço. e também acho que aqui está melhor, numa espaço mais livre, onde eu possa plantar meus amigos, meus filmes e livros. beijão.

      • Mari-Jô Zilveti Says:

        Zé, não precisa agradecer. E conte com todos os seus amigos, ex-barão, atual fb, leitores de sempre e tantos outros. Todos, tenho certeza, serão generosos a estarão sempre com você. Ah, se precisar de ajuda pra dar uma renovada no wordpress. é só pedir. Eu, de criar blogues e revistas baseadas no wp, apanhei um tanto e agora já posso dar uma mão.
        bjs e vamos lê-lo sempre.
        Ah, seria bom você ter uma figurinha laranja, um ícone, o tal do rss. Assim ele avisa seus leitores seguidores que vc acaba de publicar um texto.

  7. Adriana Cardoso Says:

    Oi José Couto ,sempre aprendendo aqui …e como sempre ainda não vi o filme e tbm não li o livro .Dessa vez quero muito ver o filme primeiro .Esse gênero muito me instiga (esse filme mais precisamente ,ainda mais depois de ler aqui sua crítica) por isso : a velha história do bem vencendo e tudo fica bem …
    E é uma verdade ,”trocar o vício pela virtude ” ,é sim coisa de auto-ajuda .E vale tudo para q vc vença na vida ,por tão pouco .Vale o qto pesa .
    Obrigada e um grande abraço .

  8. vera nilce Says:

    oh Zé nao foi por causa de seu blog , eu sou adepta do cinema nacional, tenho visto filmes bons, documentários interessantes… é que realmente nao me interessei por este filme, talvez seja preconceito mas também nao quis ver o filme sobre chico xavier e outros , tenho outro gosto sobre filmes… como eu havia falado só vim ler o blog por curiosidade já que sou leitora de seus escritos , já tinha decidido antes que não iria ver o filme … rsss vai ver sou mesmo preconceituosa mesmo nao tendo nada contra a bruna, nem contra a deborah secco mas acho que este assunto foi tao falado que penso nao irei ver nada interessante .

  9. Flávio de Castro Says:

    Dá licença para eu entrar na casa nova, Zé? Trago flores e cachaça das Gerais!
    O filme me lembrou Lucíola, de José de Alencar. No romance, porém, o amor romântico é a força que equipara diferenças e revigora o destino. No filme parece ser os últimos “6 meses” de trabalho que dão autonomia financeira para a busca da felicidade e a estabilização da protagonista, em seu desajuste com o fado. Gostei mesmo foi da sua percepção sobre o “vencer na vida” da personagem: é necessário acreditar e, sobretudo, poupar algum dinheiro para mudar o destino.
    É uma espécie de aviso-prévio que o herói tem que cumprir antes de retornar para sua Ítaca de consumo e segurança burguesa. Algum slogan espiritual parece dizer que mais do que coragem verdadeira , o ser humano precisa mesmo de prudência e economia. Uns 800 programas derradeiros para dar garantia, afinal de contas, o preço da escova progressiva deve estar mesmo um horror.
    Eu tenho saudade de Mariazinha Tiro A Esmo, prostituta desvairada das páginas de João Antonio. A redenção de Mariazinha era o almoço do dia seguinte, e o futuro se construía palmo a palmo. Para tipos assim resta a indigência e nenhum letreiro pode definir o que foi a existência ao final da película.
    A realidade, como sempre, parece insuperável. O resto são prerrogativas para o final feliz , que há de vir junto das últimas pipocas do balde extra largo da promoção combo.
    Parabéns pelo novo espaço. Como se diz na torcida do Corinthians “tamo junto”, Zé Geraldo!

    • zegeraldocouto Says:

      que bela visita, fávio. e que bela lembrança de cortesãs e prostitutas de outras épocas e outros mundos. seu texto é muito bom, assino embaixo. espero te ver por aqui sempre. grande abraço.

  10. James Cesar M A Souto Says:

    Junto à nova forma de gerar economia ou receita via web (porque, como diz o articulista, e eu concordo, a prostituição ganhou contornos bem mais capitalistas do que se supõe, com a superexposição de corpos e almas on line), BRUNA SURFISTINHA não é um fenômeno isolado. Do livro da francesa Lolita Pile, HELL, até a adaptação cinematográfica das memórias da italiana Melissa Panarello, 100 ESCOVADAS ANTES DE DORMIR, estamos diante de uma nova maneira de plastificar sentimentos e sensações, e de forma rápida – para que o truque não seja percebido fácil pela clientela, da zona ou da sala escura…

  11. João Nunes Says:

    Olá José Geraldo, bem-vindo com o novo blog. Como sempre, textos lúcidos e apaixonados. Abraços

  12. Martin Cezar Feijó Says:

    Muito pertinente sua abordagem, Zé Geraldo, como sempre. Muito bons os comentários inteligentes, mas talvez tanto o seu, quanto os demais, talvez pequem exatamente por esta razão: são muito inteligentes. Sinto discordar de uma certa tendência em menosprezar filmes de sucesso de público, como “Tropa de Elite”, “Meu nome não é Johnny”, “Chico Xavier”, e tantos outros. Godard é fundamental, mas não é todo cinema. O filme de cinema também é importante, tipo “Bravura Indômita”, e não filme de festival, como eram compostas as músicas na época retratada por “Uma noite em 67” (também excelente). Em defesa de “Bruna Surfistinha”, além da excelente interpretação de Débora Secco (e demais atrizes, como Drica Morais), eu diria que é um filme honesto, emocionante (mais para a melancolia do que para a conquista), e muito a ver com o dia internacional da mulher, para ficar claro como as mulheres ainda são tratadas em nossa época, como objeto. E, neste ponto, o filme é impecável. Como pai de 3 filhas, solidário à luta das mulheres por sua emancipação, considero “Bruna Surfistinha” um filme atual (como “A rede social”), importante (como “Tropa de Elite”) e fundamental (como “Dzi Croquettes”). Recomendo a todos que vejam o filme sem preconceitos, principalmente os machistas. É apenas uma perspectiva diferente, de ver o cinema como experiência de vida, não simplesmente experiência estética, respeitável, mas limitada. Valeu, Zé Geraldo, mesmo assim.

    • zegeraldocouto Says:

      amigo martin: respeito seu ponto de vista e concordo em muitos aspectos, mas não sei de onde você tirou que menosprezo filmes de grande público. se puder, leia por exemplo o que escrevi sobre “chico xavier” no meu antigo blog. mas não dá para colocar tudo no mesmo saco e defender um filme só porque ele faz sucesso. e foi como “experiência de vida”, mais do que como “experiência estética” que apresentei minhas críticas e restrições a “bruna surfistinha”. desculpe, mas acho que houve mais parti pris da sua parte, ao ler a minha e outras críticas, do que da minha ao ver o filme. sinto muito, mas não vejo a trajetória de raquel/bruna como exemplo de emancipação da mulher. abração, volte sempre.

  13. rachel nunes Says:

    Publiquei um comentário sobre este filme hoje, bem sintético e focado mais na recepção pelo público do que nos seus aspectos gerais, que simplesmente me desinteressaram. Portanto, obrigado pela análise focada na mercantilização dos corpos, das artes e das percepções. Valeu.

  14. Thiago Stivaletti Says:

    Zé, concordo muito com o pragmatismo do filme.
    E o Baldini (ou os produtores) foram bem espertos em deixar de fora o final feliz dona de casa.
    Tb escrevi sobre o filme: http://longosplanos.zip.net/
    Abs e até a próxima,
    Thiago

    • zegeraldocouto Says:

      thiago, caro, que bom te ver por aqui. seu blog já está entre os meus indicados. vou lá ler o que você escreveu sobre a bruna. esperteza é bem a palavra para definir o filme. grande abraço, volte semrpe.

  15. André Couto - Fitazul Studio Criativo Says:

    Olá Zé Geraldo,

    Primeiramente, parabéns pelo Blog. Conheci através de indicação da Lilian Schmeil. Já está nos meus favoritos! Diga-se de passagem, também tenho um Blog, o http://www.chuletaavaiana.com.br…um hobby viciante, rsrs

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    • zegeraldocouto Says:

      obrigado pela dica, andré. vou pensar no assunto e qualquer coisa te procuro. além de termos uma boa amiga em comum, a lilian, você tem o mesmo nome (andré couto) do meu pai e do meu sobrinho. vou ler seu blog avaiano. abração.

  16. Jose Says:

    Zé,sua volta me deixou como o mesmo sorriso que o ultimo gol do Messi provocou.Quanto oa filme,O Inacio como sempre foi preciso e conciso:Metáfora da existencia prostitucional do mundo econômico contemporâneo.

  17. zuca Says:

    Oi Zé, só agora encontrei o seu novo blog. Que bom poder contar novamente com sua crítica, seus comentários e suas ideias. É sempre um prazer ler seus textos.

    • zegeraldocouto Says:

      oi zuca, que bom te ver por aqui. (é a zuca, que conheci na casa da silvia e do hugo, né?) pois é, não divulguei muito bem o novo endereço. conto com você aqui, obrigado pelas palavras generosas. beijão.

  18. maria Says:

    oi Zé.Sinceramente? Prefiro estar entre os mil e tantos que leem poesia no Brasil(segundo o Paulo Henriques Britto).Você acha que vivemos uma crise da ficção? Os vários filmes que vc mencionou, incluindo o “Bruna…”, os ‘stand-ups’ no teatro e um nº significativo de biografias lançadas, me fizeram pensar sobre essa questão.
    E sem desmerecer o trabalho das atrizes do “Bruna…”,gostaria que não globais (Antes que o mundo acabe) e outros tivessem, também, a mesma visibilidade. Zé, quando veremos o doc sobre o Marcélia? bjs.

    • zegeraldocouto Says:

      maria querida, também prefiro. o documentário da paula gaitán com a marcélia cartaxo não tem data de estreia, que eu saiba. se tiver alguma informação, te passo. beijo grande, obrigado pela visita.

  19. Lucia Manzano Says:

    OI. ZE
    Berm dizer que gostei do que li é redundancia!
    E concordo em dizer que continuamos sendo
    o país dos espertos….. aperfeiçoando-nos a cada geração,,,
    Será? mas é rico toda a diversidade….seja o que for…
    bye

  20. Martin Cezar Feijó Says:

    É verdade, Zé. No fundo, eu quis mais provocar do que esclarecer. E há sim um parti pris em meu comentário, e não tanto com relação com que você escreve, sempre equilibrado, mas com uma certa tendência que me irrita. E você tem razão em sua última postagem, sobre uma certa pressão em não se questionar o cinema que se faz no Brasil, não é meu caso, você também sabe. Por exemplo, ontem assisti em DVD “Suprema Felicidade”, de Jabor. Incrível como um cineasta do tamanho dele, 18 anos depois faz um filme como se fosse o primeiro, como se nunca mais fosse filmar. E o filme, claro, não é todo ruim, tem cenas excelentes, antológicas (sempre coletivas, como a da morte da puta, e do carnaval de rua), Marco Nanini está ótimo, mas a meu ver, tem muitos filmes ali, muitas boas ideias, até autoria, mas é um filme razoável perto de alguns filmes dele próprio. E, no caso de “Bruna Surfistinha”, gostei mesmo mais do que eu esperava. Também não digo que trata da emancipação da mulher brasileira, e, sim, do contrário: o quanto está longe o dia de sua emancipação. O filme trata muito mais do machismo – talvez involutariamente – do que da emancipação. Com um abração, Martin.

  21. Carlos Tricolor Says:

    Zé, ainda não fui ver o filme “Bruna Surfistinha”, mas pela análise que você nos traz, já estou a lamentar que o diretor tenha feito a opção mais “esperta” e empobrecedora no tratamento da personagem. Assisti a algumas entrevistas concedidas pela Raquel, e me pareceu que há evidentes aspectos trágicos na trajetória dessa jovem, cuja sublimação por meio da escrita e a forma pasteurizada de sua recepção pela mídia dariam, por si só, material suficiente para uma abordagem mais sensível e iluminadora.
    Grande abraço.

  22. milu Says:

    zé, gostei de ler. parabéns pelo texto, pela visão aguçada e, mellhor, parabéns pelo retorno independente. vc vê que já não precisa de amparo de jornal nenhum pra encontrar teus leitores. fico muito feliz! bjo

  23. Thiago Says:

    são paradoxos expostos a quem quer ver, e fica a questão, quem é o sexo frágil da história

  24. carmattos Says:

    Zé, tenho minhas dúvidas se o conformismo e o pragmatismo são do filme ou da personagem. Até que ponto o filme se contamina com as características da personagem é uma questão a se pensar, não só nesse filme como em tantos. Bruna tinha seu projeto de capitalismo corporal, digamos assim, e foi fundo (bota fundo nisso) nele. Mas o filme, em alguns momentos, é até atrevido na narração das cenas de sexo e na maneira sutil como trata o relacionamento de afeição reprimida entre Bruna e o cliente vivido por Cássio Gabus Mendes. Costumo ser compreensivo com esses filmes médios que se esmeram na recriação dramática de modelos de comportamento que estão em discussão na sociedade. Abraço grande

    • zegeraldocouto Says:

      carlinhos, você, além de ser um de nossos melhores críticos de cinema, é um homem bom. penso que o filme mais se submete à lógica dominante, mais adere a ela, do que faz a sua crítica. mas posso estar enganado, claro. vou repensar as coisas a partir do que você escreveu. é sempre um prazer conversar com você, e uma honra receber sua visita aqui. grande abraço.

  25. carmattos Says:

    Recentemente, o Eduardo Escorel também me chamou de “um homem bom”, certamente com um pouco mais de ironia do que você. A continuar assim, vou fundar uma igreja e pedir à Tizuka que rode um filme sobre mim, baseado em fatos reais…

    • zegeraldocouto Says:

      caríssimo: não sei o que o escorel disse, mas posso lhe garantir que não há ironia nenhuma na minha frase. foi um elogio sincero. talvez devesse ter dito “um homem íntegro” ou “generoso”. sinto muito se pareceu irônico. abração. (a ideia do filme da tizuka me fez rir até agora.)

  26. teresinha lucia Says:

    Zézin querido, parabéns pelo blog.Adoro tudo que você escreve!

  27. Bruna auto-ajuda ponto com | A Identidade Bentes Says:

    […] Publicado em 21 March 2011 No Blog do Zé Geraldo: […]

  28. José Rosa Filho Says:

    Zé, tenho um dificuldade incrível com Blog…talvez a idade, né? Mas gostei, como sempre acontecia na sua coluna da Folha, muito dos seus comentários. Gostei particularmente de ver comentado o belíssimo The Pawnbroker, com Rod Steiger, filme que assisti ali pelo começo dos anos 60, a mesma década de nossos Pelés e Garrinchas. Outro filme, este fenomenal, em que ele trabalhou foi On the Water Front, com Marlon Brando, que levou a estatueta com ele. Essa minha visita é só conhecer o gramado , quero dizer, o Blog. Você está fazendo falta com seus comentários sobre futebol. Abs. Zé Rosa Filho.

    • zegeraldocouto Says:

      zé rosa, grande amigo, que bom te ver por aqui. que bom que compartilhamos a admiração pelo rod steiger. realmente, no “sindicato de ladrões” ele está fantástico. espero que você volte sempre. grande abraço e obrigado pelas generosas palavras.

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