Amor frágil, atriz poderosa

Amigos e amigas:

Retomo aqui nosso diálogo interrompido bruscamente há três semanas. Como signo dessa conversa reatada, a imagem acima é a mesma que ilustrou meu último post no extinto blog na Folha on-line. A foto de Wayne Miller mostra o cinema tal como o vejo, como espaço de prazer e descoberta.

Conto com os leitores e amigos para tornar este cantinho um lugar vivo, inteligente e caloroso.

Como alguns de vocês sabem, perdi de um único golpe (e golpe é bem a palavra) o blog de cinema e a coluna de futebol que eu mantinha na Folha. Por isso não estranhem se aflorar eventualmente aqui algum comentário futebolístico. Old habits die hard. Ademais, talvez esses dois domínios (o campo de futebol e a tela de cinema) não estejam assim tão distantes um do outro. Aqui eles podem se tocar.

Uma vantagem desse hiato de algumas semanas foi ter me poupado da chatice de comentar os “filmes do Oscar”, lamentar a safra ruim, as injustiças pontuais, o modorrento conservadorismo da indústria.

Vamos falar de cinema

Acaba de sair em DVD, pela Lume, um belo filme hoje meio esquecido, Um amor tão frágil (1977), do suíço Claude Goretta.

Com todo bom filme, ele vale menos pela história que  conta (o infeliz amor entre uma ajudante de cabeleireira recém-saída da adolescência e um rapaz burguês estudante de letras) do que pelo que ele mostra, e pela maneira como mostra: as relações dos personagens entre si e com o ambiente à sua volta, as transformações suscitadas no corpo e no espírito desses seres pelo seu entrechoque.

Discrição e sutileza são as marcas dessa narrativa, centrada toda ela na figura miúda da protagonista Beatrice, apelidada significativamente de Pomme (maçã). Basta dizer que Beatrice é Isabelle Huppert, então com 23 anos e já uma atriz de assombroso talento.

A primeira sequência mostra Pomme em seu trabalho no salão de beleza em Paris. Uma única panorâmica, cacos de conversa, gestos profissionais e mecânicos e pronto: está desenhado o lugar acessório dessa mocinha no mundo, sua modéstia diante da existência.

Com delicadeza, como que para não machucá-la ou assustá-la, Goretta traz ao proscênio essa personagem frágil e assustadiça, espécie de Macabéia vinda do interior para ser invisível no burburinho da metrópole.

A moça mora com a mãe num cubículo e tem uma amiga mais velha, a colega de trabalho Marylène (Florence Giorgetti), escolada no trato com os homens. Ela acaba de ser rejeitada pelo amante casado. As duas viajam juntas para Cabourg, balneário meio desolado na Normandia. É admirável a cena em que Marylène, embriagada e frustrada pelo insucesso de seus flertes, caminha num fim de noite pela praia se desfazendo das peças de roupa, que sua diligente amiguinha vai recolhendo atrás dela. Pomme não tem existência própria.

Amor, quem contaria?

Até que aparece, para ela que não esperava nada, o amor, na forma de um rapaz rico, educado e tímido.

Tudo vai bem até que um dia, em Paris, quando ele está escovando os dentes, Pomme lhe pergunta à queima-roupa: “O que é dialética?” – palavra que tinha ouvido os amigos do rapaz pronunciarem a torto e a direito no jantar da noite anterior. Paralisado no meio do gesto, ele se dá conta de repente de que o abismo entre os dois é muito mais intelectual do que social ou econômico. O saber os separa.

O prodígio desse pequeno grande filme, rodado todo em tons pastel, descoloridos como a vida da protagonista,  é o modo como diretor e atriz  fazem brotar a graça naquele ser tão insípido. Quase sem palavras, Isabelle Huppert expressa no brilho (ou opacidade) do olhar, na intensidade da respiração, nos matizes da própria pele, as mudanças anímicas da personagem. A alma se revelando no corpo, o espírito na matéria: não é esse, afinal, o sonho maior do cinema?

Gata Borralheira sem final feliz, Pomme é um grande momento de uma atriz sublime.

Em tempo: o filme é baseado no romance La dentellière, de Pascal Lainé. Esse é também o título original do filme de Goretta. Quer dizer “a rendeira” e, junto com a última imagem na tela, remete aos quadros de Vermeer, com suas mocinhas modestas e bonitas fazendo coisas modestas e bonitas.

Aqui vai o trailer francês do filme. Bom proveito.

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47 Respostas to “Amor frágil, atriz poderosa”

  1. Thiago Says:

    Que ótimo Zé. Me sinto como as crianças da imagem – feliz ao ver seu retorno aos gramados do cinema e salas do futebol. Afinal, com os últimos acontecimentos, o esporte “paixão nacional” tem um roteiro similar ao clássico O Poderoso Chefão. Abraço.

    • zegeraldocouto Says:

      thiago, caro. você está inaugurando este blog junto comigo. inepto que sou, primeiro respondi como se eu mesmo estivesse comentando. muito obrigado pelo carinho e pela força. abração

  2. mara Says:

    Viva Zé!!! que ótima reestréia. Os seus leitores agradecem (os)

  3. Gregório Says:

    Parabéns pelo blog, José! Ótimo texto, como sempre. Sua visão sobre cinema é a melhor da mídia. Nada se equipara. E que venha o futebol também… Vida longa!
    abraço do amigo virtual
    Gregório

  4. Marina Says:

    Quem bom que você está de volta, Zé! E a sua volta até me motivou a postar um comentário – eu era uma leitora-fantasma no teu outro blog, rs. Ótimo (re)começo ao falar de Isabelle Huppert. Não vi o filme mas certamente vou garimpá-lo por aí. Me motivou também a ressucitar meu blog de cinema, vamos ver se tenho ânimo para postar algo por lá 🙂 obrigada por reavivar as reflexões sobre o cinema (e o futebol também, eu adoraria ler por aqui!) nesse novo endereço!
    Abraços!

  5. Jeferson A. Camargo Says:

    Olá, JGC! Muito obrigado por responder ao meu e-mail. É um prazer enorme poder ler seus escritos novamente. Abraços. Jeferson.
    Em tempo: Há algum tempo, em seu antigo blog, você escreveu um texto sobre “filmes de adolescentes. Mais precisamente: filmes sobre adolescentes, ou ambientados entre eles”. Os filmes em questão eram: “As Melhores Coisas do Mundo, de Laís Bodanzky; “Sonhos Roubados”, de Sandra Werneck; e “Antes Que O Mundo Acabe”, de Ana Luiza Azevedo. Lembrei-me deste texto ao assistir

  6. Jeferson A. Camargo Says:

    Olá, JGC! Muito obrigado por responder ao meu e-mail. É um prazer enorme poder ler seus escritos novamente. Grande abraço. Jeferson A. Camargo.
    Em tempo: Há algum tempo, em seu antigo blog, você escreveu um texto sobre “filmes de adolescentes. Mais precisamente: filmes sobre adolescentes, ou ambientados entre eles”. Os filmes em questão eram: “As Melhores Coisas do Mundo”, de Laís Bodanzky; “Sonhos
    Roubados”, de Sandra Werneck; e “Antes Que O Mundo Acabe”, de Ana Luiza Azevedo. Lembrei-me deste texto ao assistir a “À Deriva”, de Heitor Dhalia, neste fim de semana. Acho que, talvez, “À Deriva” se encaixe bem àqueles filmes, sobre adolescentes, mas não, necessariamente, para adolescentes. E o ator frânces Vincent Cassel está espetacular neste filme.

  7. Marcelo Says:

    Todo poder à Lume Filmes!

  8. zé josé Says:

    grande zé, já está nos meus favoritos.
    abs!

    ps: quando saí do globo, um outro grande motivo de felicidade foi que eu poderia ignorar solenemente o oscar!

  9. Adriana Cardoso Says:

    José Couto ,q bom o seu retorno .Sucesso desde já e sempre .
    Para mim ,como sempre ,uma aula .
    Quero muito ver o filme ,apesar de me parecer triste : “… O saber os separa …”
    Grande e afetuoso abraço .

  10. AndreGustavo Says:

    Estávamos esperando! a notícia feliz de um retorno!

  11. fernando severo Says:

    A Lume está arrasando. O Claude Goretta é um grande diretor injustamente esquecido. Seu filme L’Invitation foi comparado a Jean Renoir.

    • zegeraldocouto Says:

      é verdade, fernando. o catálogo deles é um dos melhores. e concordo com você: o goretta é um diretor que merece mais atenção. grande abraço, obrigado pela visita e pelo comentário.

  12. rachel nunes Says:

    Cheguei aqui através do blog do Inácio/Uol. Curiosamente, vi este filme na semana passada, e é justo como consta em seu comentário. Tenho até um comentário a publicar pronto, em meu próprio blog. Um trecho:

    “Através de poucos diálogos e imagens que acompanham a vida de personagens tão diferentes postos, em dado momento, um diante do outro, com um envolvimento amoroso que troca mútuas carências e dependências, logo superadas pela parte masculina da relação, mas não pela feminina, de caráter bem mais passivo, temos uma investigação serena sobre uma relação de caráter tempestuoso, porém quase que exclusivamente interno, em paralelo às demais relações entre homens e mulheres e os papéis sociais que lhes cabem.”

    Aproveito, assim, para divulgar também meu próprio blog, em http://rachelsnunes.blogspot.com/, que trata de questões afins: cinema, literatura, teatro, educação e outras coisinhas mais.

    • zegeraldocouto Says:

      que bom, rachel, que temos essa sintonia. vou ler seu blog. o trecho publicado aqui é muito bom e tem tudo a ver com a minha leitura. obrigado pela visita e pela simpatia. abraços.

  13. eduardo valente Says:

    aê, Zé! viva a internet e nossa liberdade de lermos quem queremos independente do que queiram os “outros”!

  14. Fabio Victor Says:

    Viva! Ganham o cinema, os livros, o futebol, as ideias. Ganhamos todos que entramos aqui pra te ler. Abraço

  15. Mônica d´Angelo Says:

    oi zé, que bom você de volta! vida longa!!!

  16. Raquel Cozer Says:

    Bem-vindo ao mundo dos ex-Folha =). Você vai fazer uma falta imensa por lá. Perde o leitor do jornal, ganha aquele que pode te ler por aqui! Beijo da Raq

    • zegeraldocouto Says:

      raquel querida, bom te ver por aqui. pois é, vamos nos achando em outros espaços, longe da barão de limeira. obrigado pela força e pela visita. vou colocar seu blog nas minhas indicações. beijão, volte sempre.

  17. Carles Martí Hernández Says:

    Grande notícia a sua volta, meu caro Zé Geraldo. E como homenagem desde terras ibéricas, no mesmo dia, o primeiro gol de Elias, salvando o “Aleti” praticamente no último minuto. Emoções às que já nos acostumamos a viver ao longo da história cheia de alternancias e tão bem simbolizadas pelas cores do alvinegro num estádio, ou, ainda no jogo entre penumbras e luzes na telona. Viva a arte popular!

  18. RENATA D'ELIA Says:

    Vida longa ao novo blog, Zé! Estarei por aqui conferindo seus posts. bjs!

  19. michel e cecília Says:

    Oi, Zé Geraldo. Que beleza voltar a te ler! Fazemos parte do coro dos leitores que agora se sentem felizes e felizardos. Muito obrigados. E com a análise do ‘la dentellière’, fazes outro convite irresistível ao bom cinema. Sucesso para ti, sabendo que somos mais dois ali nas cadeiras do teu cinema, nos divertindo. Abraços, Cecília e Michel.

  20. maria Says:

    zé, que bela surpresa! Não sabia que você havia retornado. E sempre nos ensinando algo interessante, início auspicioso.
    Não conhecia nada de Claude Goretta. Por favor, escreva sim sobre futebol! Nós, seus fiéis leitores, sentimos falta da coluna.
    Felicidades. bj

  21. Carlos Tricolor Says:

    Olá, Zé! Fico muito feliz por seu retorno. Já sentia a falta de seu texto saboroso e das dicas inteligentes, como essa de “Um amor tão frágil”.
    Cheguei ao seu novo endereço pelo blog do Zanin, que, também craque que é, dedicou um belo texto a você.
    Para a alegria se completar, só falta um comentário seu sobre as coisas do nosso ludopédio, outra arte que se ressente da ausência da sua crítica.
    Grande abraço e vida longa, Zé!

    • zegeraldocouto Says:

      carlos, meu caro: bom te reencontrar aqui. pois é, o zanin foi generoso e corajoso como sempre. amigo é pra essas coisas. conto com você aqui para não deixar essa peteca cair. quanto ao futebol, espero logo mais poder conversar sobre ele em outro lugar. grande abraço, volte sempre.

  22. Andrea Says:

    Como disse alguém aí, também era leitora fantasma… rs. Fui reorganizar meus favoritos hoje e, felizmente, vi que você já está em um novo espaço. Felicíssima com a novidade. E, por favor, fale sim sobre futebol também. Tudo de bom!

  23. Frederico Machado Says:

    Grande Zé! Feliz em lê-lo novamente e comentando um filme da nossa Lume! Agradeço o espaço, divulgação e apoio. Continuamos na luta e vamos em frente! Abração!

  24. Claudia PAS Says:

    Zé,

    Mas que ótimo que você está de blog novo, aquela plataforma de blogs da Folha era/é péssima mesmo… saem todos ganhando com a tua mudança de endereço, na verdade eu fui doutrinada a só ver coisas boas em mudanças e não deixo espaço para dúvidas!

    Boa sorte no novo blog!

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